A História Que Escrevi Para Ti
Synopsis
Após comprar seu novo apartamento em Xangai, a jovem romancista Luísa de Oliveira Falcão reencontra Diogo Silveira, a sua grande paixão dos tempos de colégio. O antigo prodígio dos palcos, banido da indústria audiovisual após confrontar figurões e ver o pai ruir em desgraça, trabalha agora no anonimato como um modesto NPC em um Jogo de Mistério e Interpretação. Ocultando a sua identidade como a consagrada autora de pseudónimo Baleia ao Pôr do Sol, Luísa convida Diogo para dividir moradia e abre portas para que ele reconquiste os holofotes na superprodução Cavaleiros na Capital. Na intimidade do convívio diário, sentimentos antigos renascem, impulsionando a adaptação cinematográfica de O Amigo Leão Dela.
Contudo, o brilho efêmero da fama cobra um preço implacável: campanhas difamatórias, jogos de poder e as chantagens do pai de Diogo abalam o vínculo do casal até uma dolorosa separação. Desolado, Diogo lança-se nas águas do Mar da China Oriental, sobrevivendo no limiar do silêncio até reencontrar Luísa no estabelecimento Caçadores de Enigmas. Entre cicatrizes partilhadas e feridas expostas, os dois terão de enfrentar as armadilhas da ribalta e reconstruir o amor em busca de redenção e consagração artística.
Chapter1
Xangai, 2017.
Ao colocar o último móvel no lugar, Luísa de Oliveira Falcão finalmente sentiu o alívio tomar conta do peito.
O apartamento não era grande, tinha apenas cinquenta e dois metros quadrados, mas a reforma levara mais de seis meses. Luísa inspecionava cada detalhe de seu novo território: o piso de madeira colocado em espinha de peixe, a janela ampla que ocupava quase toda a parede e o sol suave de outono atravessando o vidro para se derramar pelo chão.
Perfeito. Era exatamente como sempre imaginara o quarto de uma escritora.
Desde os dezoito anos, quando ouvira pela primeira vez a frase de que uma mulher, para escrever ficção, precisa de dinheiro e de um teto todo seu, transformara aquilo em lema de vida.
Após vender os direitos de adaptação audiovisual de seu livro anterior, Luísa calculou o saldo da conta bancária e finalmente colocou o plano em prática. Agora, o sonho se tornava realidade.
Sob a sombra dos plátanos da cidade, conquistara o próprio refúgio.
Um reino inteiramente seu.
A faxina consumiu mais algumas horas. Do lado de fora, o outono já avançava, mas o esforço a fez transpirar bastante. Depois de guardar vassouras e panos, correu para o banheiro e tomou uma ducha revigorante.
Com o vapor cobrindo os azulejos, limpou o espelho com a mão e encarou o próprio rosto aos vinte e cinco anos. Sob a franja desalinhada, os olhos escuros mantinham um brilho vívido, e os cílios espessos retinham pequenas gotas de água.
Se o nariz fosse um pouco mais empinado, estaria perfeito.
Suspirou de leve, apertou a ponta do nariz e endireitou a postura. Olhou de novo para o espelho, mas a névoa já voltava a subir, restando apenas o contorno de sua silhueta alta e esguia.
Ainda não era nenhuma beleza monumental de parar o trânsito, mas já havia melhorado bastante em comparação à garota da adolescência.
Principalmente depois de vestir um sobretudo preto que ia até os tornozelos e caprichar no batom vermelho. O ar sofisticado de mulher urbana cosmopolita, ao menos na pose, ela dominava com facilidade.
O celular sobre a pia começou a vibrar. Luísa deu uma olhada: eram notificações de um grupo no WeChat com treze pessoas, intitulado "Esquadrão do Colégio K em Xangai".
[Tiago Lima-Barreto: Estou quase chegando. Quem ainda não saiu de casa, agiliza aí!]
[Gabriela Guimarães-Rezende: Líder da turma, já estamos no segundo andar. Quando chegar, pode vir direto para a sala reservada.]
[Bernardo Cunha-Vasconcelos: Todo mundo já chegou? Estou completamente parado no anel viário central. O trânsito de Xangai é um verdadeiro insulto ao motor do meu carro...]
Pelo visto, quase todos estavam a caminho. Luísa não queria ser a última a chegar. Envolveu o pescoço com um cachecol, pediu um carro por aplicativo e seguiu para o restaurante.
Por sorte, o trajeto era curto e a corrida não levaria mais de quinze minutos. Aproveitando a espera no semáforo vermelho, abriu a lista de participantes do grupo e tentou, com algum esforço, resgatar os rostos dos antigos colegas na memória.
Para ser sincera, quase não tinha intimidade com nenhum deles.
Na época do ensino médio, Luísa fora uma aluna extremamente retraída. Suas notas nunca passavam da média, a aparência não chamava atenção e o único registro digno de nota fora ter escrito o roteiro da peça no festival de teatro do segundo ano.
Guardava poucas lembranças agradáveis da adolescência, o que a deixava distante daquela turma. Se não fosse por Tiago — encarou a foto de perfil do ex-líder de turma, que posava de jaleco branco com um semblante compenetrado e solene —, se não fosse a insistência dele para que ela se integrasse aos colegas que moravam em Xangai, teria preferido mil vezes ficar em seu pequeno reino, vestindo o pijama do Pikachu e maratonando séries.
Além disso, naquele grupo...
Não havia sinal de Diogo Silveira.
O carro parou em frente a um hotel cinco estrelas no distrito de Jing'an.
Ao descer, Luísa soube de imediato quem havia escolhido o lugar.
Bernardo Cunha-Vasconcelos. O maior exibicionista da história do Colégio K. Sete anos após a formatura, quanto mais dinheiro ganhava, mais ostentava. Se não fizesse alarde, não faria jus ao apelido de "Irmão Bernardo".
A sala reservada ficava no terceiro andar. Quando Luísa se aproximou, a porta se abriu de repente e um homem saiu com o braço direito erguido. O relógio Rolex verde reluzindo no pulso chamava muito mais atenção do que o próprio dono.
— Com licença, pessoal, vou atender uma ligação urgente ali ao lado. Tem um contrato enorme em jogo... ué?
Luísa ficou sem reação por um instante, contendo o riso.
Não sabia se Bernardo já aparentava ter quarenta anos na época da escola ou se havia se conservado muito bem após a formatura. De qualquer modo, era impressionante como alguém conseguia passar sete anos sem mudar nada, exceto por ter ganhado um número a mais no manequim.
Até ela, que costumava esquecer rostos com facilidade, o reconheceu de primeira.
Já Luísa, em contrapartida, havia mudado radicalmente. Bernardo a examinou dos pés à cabeça por longos segundos antes de virar o rosto para dentro e gritar:
— Essa beldade veio acompanhando quem? Alguém assume?
Sentada ao lado da mesa, Gabriela Guimarães-Rezende deu um salto da cadeira e a reconheceu na mesma hora.
— Acompanhando quem, o quê! Irmão Bernardo, vai colocar seus óculos!
Ela veio a passos rápidos e segurou a mão de Luísa.
— Mas não é a Luísa? Meu Deus, você sumiu logo depois que a gente se formou, fazia séculos que eu não tinha notícias suas!
Como esperado, assim como Luísa guardava pouca memória dos outros, eles também mal se lembravam dela. Como o plano era passar despercebida no meio da multidão, Luísa usou duas ou três frases amigáveis para devolver o centro das atenções a Gabriela.
Como antiga diretora de comunicação da turma, Gabriela começara a carreira numa grande produtora chamada Aurora Filmes logo após sair da faculdade. Hoje, já ocupava um cargo de liderança na área de divulgação e imprensa.
Ao ouvir o nome da Aurora Filmes, Luísa chegou a hesitar por um instante. Um de seus romances estava prestes a estrear nas telas sob a produção justamente daquela empresa.
No entanto, com centenas de funcionários na Aurora, não era garantido que Gabriela estivesse envolvida naquele projeto específico, e Luísa não tinha a menor intenção de revelar seu pseudônimo literário. Limitou-se a apoiar o queixo nas mãos e ouvir as fofocas dos bastidores que a colega desfiava sem parar.
— Sabe aquele ator famoso e aquela atriz que todo mundo jura que namoram? Pura jogada de marketing para promover a novela nova! Na verdade, ele já até casou no civil com uma fã...
— Ah, e aquela outra lá? Um amor de pessoa nos bastidores, zero estrelismo. O que sai na internet criticando é tudo intriga da concorrência, não acreditem em nada.
Depois de esgotar as fofocas da indústria, Gabriela tomou um gole de água e, atendendo aos pedidos dos presentes, começou a relembrar a trajetória dos antigos colegas desde os tempos de escola.
Em situações assim, Luísa costumava atuar apenas como espectadora.
Agia dessa forma desde menina. Em qualquer ambiente, deixava apenas metade da alma no corpo. A outra metade, segurava por um fio invisível e soltava no ar, observando as pessoas, os trejeitos, os mínimos detalhes de expressão, para mais tarde transformar cada cena em páginas de seus livros.
Com a mente sempre dispersa, não era surpresa que, fora a escrita, não soubesse fazer quase nada direito.
Enquanto divagava, sentiu um puxão repentino que a trouxe de volta.
Estranhou a sensação e voltou a fitar Gabriela, que não parava de falar. O que ela estava dizendo? No estado de transe de Luísa, a imagem de Gabriela parecia passar em câmera lenta, com a boca se mexendo de forma exagerada e o som chegando com atraso.
— O Diogo Silveira, aquele rapaz que sentava logo atrás da Luísa... Luísa, não me diga que você esqueceu dele também?
Ao ouvir aquele nome, a alma de Luísa regressou instantaneamente ao corpo.
Diogo Silveira. Uma lenda viva que atravessara três gerações no colégio.
Na adolescência, os critérios para julgar alguém eram simples. Para ser popular, ou você tinha as melhores notas, ou a melhor aparência. Diogo pertencia, sem dúvida, à segunda categoria.
Mas, enquanto os prodígios das olimpíadas de ciências eram logo esquecidos quando a turma seguinte chegava, a fama dos mais bonitos sofria renovação constante. Uma lenda dava lugar à outra assim que se formava.
A fama de Diogo, no entanto, tornara-se eterna porque ele conseguira uma vaga na prestigiada Academia de Teatro de Xangai. Mesmo com uma nota no vestibular que apenas raspava a linha de corte das provas artísticas, sua foto fora parar no mural de honra da escola, lado a lado com os gênios que garantiram vaga direta nas melhores universidades do país.
Aquele mural ficava bem na entrada do prédio internacional do Colégio K. Cada calouro que pisava na escola parava para admirar os destaques logo no primeiro dia. E o rosto de Diogo...
Era simplesmente magnético.
Luísa nunca confessara a ninguém, mas, no segundo ano da faculdade, quando voltou ao colégio para visitar os professores, tirou uma foto daquele mural às escondidas. Na imagem, Diogo usava o cabelo raspado, com o segundo botão do uniforme desabotoado, o nariz reto e as linhas do maxilar e da clavícula muito bem delineadas. A expressão era fria, carregada de uma sutil impaciência.
"Um verdadeiro marrento", pensara ela na época, mas salvara a foto com todo o cuidado numa pasta protegida do computador.
Mais tarde, quando começou a escrever para valer, Luísa evitou deliberadamente buscar notícias sobre ele. Não assistia às séries em que ele atuava, não o seguia no Weibo, não o adicionara no WeChat. Sabia apenas que ele não havia estourado como grande astro, mas ignorava o fato de que já estava sumido das telas havia muito tempo.
Luísa recolheu o olhar e voltou a prestar atenção em Gabriela.
— Ele não grava nada há anos, vocês sabem por onde ele anda? — Gabriela baixou o tom de voz com teatralidade. — Dias atrás, ouvi dizer que ele está trabalhando como NPC num jogo de mistério e interpretação aqui em Xangai.
Nos últimos dois anos, as casas de Jogo de Mistério e Interpretação brotaram como cogumelos por toda a metrópole. A concorrência começou nos roteiros, passou para a cenografia luxuosa e agora chegava ao nível de atuação dos atores contratados. Luísa já ouvira falar que esses estabelecimentos recrutavam estudantes de artes cênicas, mas Diogo...
No segundo ano da faculdade, ele já tinha projetos exibidos. Embora fosse um novato sem grandes campanhas de divulgação, o talento e a presença em cena eram inquestionáveis; na época, Luísa até vira trechos de atuações dele circulando nas redes sociais.
Trabalhar como NPC?
Antes que pudesse fazer qualquer pergunta, um alvoroço na entrada interrompeu seus pensamentos. Bernardo estava de volta.
Com o retorno dele, o silêncio tornou-se impossível. Ele subiu num pequeno tablado com a taça na mão, ajeitou o cabelo com a direita e deixou o Rolex verde ofuscar os olhos de todos mais uma vez.
— Pessoal, já faz algum tempo que a maioria de nós mora em Xangai, mas é a primeira vez que conseguimos reunir tanta gente! — Bernardo olhou ao redor do salão. — Seguinte: como faz tempo que não nos vemos, cada um vai se apresentar, falar do trabalho atual e do estado civil. Quem for de áreas parecidas já pode trocar contatos e fazer negócios. E quem estiver solteiro desesperado para casar, a gente dá uma força!
— Maravilha! Vou começar por mim...
Assim que ouviu a expressão "fazer negócios", a mente de Luísa começou a se desconectar de novo.
Era exatamente por isso que havia pedido demissão para se dedicar exclusivamente à escrita. Quando voltou do exterior, trabalhou um ano como jornalista de finanças, frequentando eventos de alto padrão e convivendo com a elite empresarial — mas nunca suportou aquele tom de conversa.
Gente falsa, escorregadia, que colocava uma máscara logo ao acordar e só se aproximava de você pelo cargo impresso no cartão de visita.
As palavras de Bernardo a transportaram de volta àquele ambiente corporativo sufocante. Luísa se refugiou nas próprias lembranças para se esquivar do falatório, até que sentiu um toque no ombro.
— Luísa, é a sua vez. — Gabriela, ao seu lado, a encarava com os olhos arregalados.
Luísa percebeu que as outras doze pessoas a fitavam com atenção redobrada. Tentou se recompor rapidamente, mas as palavras travaram na garganta.
O que deveria dizer? Que escrevia romances?
Os colegas ao redor eram advogados, operadores do mercado financeiro ou professores de escolas internacionais de elite. Todos tinham profissões consideradas respeitáveis e tradicionais.
Ela? Escritora de ficção?
Arrependeu-se de ter passado os últimos minutos viajando em pensamentos em vez de bolar uma resposta mais convincente.
— Eu... sou autônoma — respondeu, tentando soar vaga.
Como esperado, vários rostos assumiram imediatamente uma expressão compreensiva de "está desempregada". Bernardo interveio com um tom paternal e condescendente:
— Autônoma como assim? Luísa, fiquei sabendo que você trabalhou como jornalista antes. Pediu as contas e ainda não arrumou nada novo?
Sem esperar que ela respondesse, Bernardo voltou-se para a mesa e começou a conclamar os presentes:
— Alguém aqui tem contatos na imprensa? Ou em agências de relações-públicas? Vamos dar uma força para a Luísa, afinal o objetivo do nosso encontro é compartilhar recursos, não é?
A situação saiu totalmente do controle de Luísa.
Uma colega cujo nome Luísa já havia esquecido pigarreou para chamar a atenção de todos e falou em tom suave:
— Para ser bem sincera, eu trabalho com marketing numa multinacional e cuido de toda a verba para os canais de mídia no leste da China. Deixem-me checar a minha lista de contatos para ver se tem alguma vaga de destaque para a Luísa. Se alguém tiver outras propostas de operação, pode me procurar também.
Em seguida, outro jovem talento levantou-se num ímpeto, rápido como se fosse perder o próprio valor caso demorasse um segundo a mais.
— Com certeza! Eu atuo na monetização de uma grande empresa de tecnologia. Vou alinhar com o nosso RH a questão das vagas abertas. O setor de internet valoriza muito profissionais com bagagem de redação para otimizar o alcance e a retenção de usuários.
Luísa permaneceu em silêncio.
Que língua era aquela?
Eles queriam ajudá-la a conseguir um emprego ou estavam apenas usando a oportunidade para massagear o próprio ego?
Aquele ambiente pretensioso e corporativo a sufocava como antigamente, e o jargão profissional ressoava em seus ouvidos como uma dor de cabeça iminente. Para piorar, outros dois colegas se aproximaram pedindo o contato dela no WeChat, prometendo enviar links de vagas enquanto aproveitavam para exaltar os próprios feitos nas empresas onde trabalhavam.
Luísa massageou as têmporas, exausta:
— Eu já estou no grupo da turma, podem me adicionar por lá.
Ao lado dela, Gabriela soltou uma exclamação:
— Você está no grupo? Como nunca fala nada, eu nem sabia que tinham te colocado! Espera aí, lembrei de uma vaga excelente na minha produtora, vou te adicionar agora mesmo e te mandar o descritivo.
Entre tantas conversas vazias, Gabriela parecia ser a única genuinamente disposta a estender a mão.
No entanto, instantes depois, Gabriela emudeceu por completo.
Um pressentimento estranho brotou no peito de Luísa.
Sentada ao lado da colega, viu quando Gabriela tocou na foto de seu perfil, voltou para a tela anterior, conferiu o identificador da conta e abriu uma conversa antiga com outra pessoa. Gabriela rolou a tela para cima até encontrar a captura de tela de um cartão de contato.
Ela abriu a imagem — que exibia a mesmíssima foto e o mesmo nome de usuário de Luísa — e colocou o celular bem diante dos olhos da escritora.
— Luísa... — Gabriela estava em choque. — Este é o contato de uma autora que a minha colega me indicou dias atrás, e eu ainda nem tinha conseguido adicionar... A autora original da nova superprodução da nossa empresa é você?
— Então... — começou Luísa.
Gabriela nem esperou a explicação. Virou-se para os colegas que até segundos atrás desfilavam arrogância e disparou com indignação:
— Arranjar emprego para quem? Parem com essa palhaçada!
— Vocês fazem ideia de por quanto ela acabou de vender os direitos de adaptação do livro dela?!
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