Sob a Túnica Branca, um Dragão
Synopsis
Mu Congyun, o primeiro discípulo sênior do Palácio Tianji da seita Xuanling, recebe a missão de investigar a calamidade provocada pela Névoa Corrosiva na fronteira. Em meio ao caos, seu caminho se cruza com o de Shen Qi, o renascido Filho Celestial Espectral de Fengdu e último Zhulong do mundo, que sobreviveu à crueldade de sua própria linhagem no passado. Ocultando sua índole implacável e voraz sob a persona de um irmão júnior dócil, frágil e desamparado, Shen Qi ingressa em Xuanling e permanece inseparável de Mu Congyun. Entre crises na Seita do Veneno, provações na Academia Shifang e conspirações mortais da Família Hua, uma profunda cumplicidade floresce entre eles.
Contudo, quando sua identidade como soberano espectral é desmascarada e as seitas exigem sua execução, Mu Congyun renuncia à sua seita para protegê-lo com a Espada da Compaixão. Para salvar o mundo que Mu Congyun tanto preza, Shen Qi ascende ao Reino da Imortalidade Alada e adentra a Tumba do Dragão da Vela para consumir toda a névoa corrompida, afundando em um sono milenar. Em vigília paciente pelas terras áridas da Montanha Zhongshan, Mu Congyun permanece ao lado do dragão adormecido até que a vida renasça e seu reencontro seja pleno.
Chapter1
Um murmúrio caótico e indistinto soava em seus ouvidos.
As vozes oscilavam, ora distantes, ora desconfortavelmente próximas. Parecia que uma multidão incontável o cercava, trocando cochichos entre si. Ou como se incontáveis pessoas o encurralassem no centro, incontáveis pares de olhos cravados nele, bocas abrindo e fechando para balbuciar delírios incompreensíveis, chamando sem parar o seu nome...
Mu Congyun sentiu o peito se comprimir em angústia. Quando o ar já lhe faltava por completo, abriu os olhos de repente.
O som vacilante ao redor dissipou-se num instante, recuando como a maré.
Tenso, correu os olhos pelo aposento. Só depois de confirmar que estava inteiramente sozinho é que relaxou, soltando a respiração aos poucos.
Ainda bem. Fora apenas um pesadelo.
Enxugando o suor frio que brotava em sua testa, sentou-se de pernas cruzadas para meditar e acalmar o espírito.
Desde que transmigrara para este mundo e fora recolhido por seu mestre para Xuanling, vivera recluso em Mingyue Canglu, dedicado com afinco ao cultivo. Fazia muitos anos que não experimentava aquela sufocante sensação de estar cercado de pessoas.
Aquele pesadelo terrível reavivou lembranças anteriores à sua transmigração. Recordações há muito empoeiradas ganhavam forma em rostos desfigurados que o cercavam, lábios movendo-se com escárnio estridente:
— Ele não abre a boca o dia inteiro. Não será mudo?
— Fica o tempo todo com essa cara de velório, dá até azar só de olhar.
— A aparência é boa, pena que não regula bem da cabeça.
— Não estou falando por mal, mas gente doente precisa de tratamento. Não vá bancar o teimoso e fugir do médico.
A maré que recuara voltou a subir de repente. Parecia imerso nas águas gélidas de um lago profundo, arrastado para o fundo por correntes invisíveis... Descartou de imediato os pensamentos dispersos, firmou a mente e começou a circular a técnica de cultivo mental vez após vez.
Passado um quarto de hora, Mu Congyun conteve a turbulência no peito. A franja junto à testa estava encharcada de suor frio.
Ergueu a mão e traçou um leve gesto no ar. Um espelho d'água ovalado materializou-se à sua frente, com a superfície límpida e impecável, refletindo cada detalhe com extrema nitidez.
Ajeitou a própria aparência diante do reflexo.
A figura no espelho vestia trajes brancos imaculados. Metade dos cabelos escuros estava presa por uma coroa de lótus de jade branco, enquanto a outra metade caía livre pelas costas. Algumas mechas soltas repousavam sobre o peito e roçavam de leve o contorno do rosto, realçando uma pele alva como porcelana e traços refinados.
Quando transmigrou para aquele corpo, tinha apenas dez anos. Agora, aos vinte, as feições eram idênticas às de sua vida anterior.
Contudo, exatamente como aquelas vozes diziam, de nada adiantava uma boa aparência quando se carregava no rosto uma expressão impassível e gélida, capaz apenas de afastar os outros.
Mu Congyun puxou os cantos da boca diante do espelho, tentando esboçar um sorriso.
O jovem no reflexo devolveu uma expressão rígida e forçada.
A três milésima ducentésima octogésima quinta tentativa terminou em fracasso.
Desalentado, comprimiu os lábios e retomou a habitual neutralidade.
Com um movimento de manga, dispersou o espelho d'água e saiu para se reunir aos outros condiscípulos.
A velha porta de madeira rangeu com estridência ao ser empurrada. Embora estivesse em pleno verão e o sol da manhã despontasse, nenhum raio de luz penetrava ali. O céu até onde a vista alcançava exibia um cinza opaco, e uma névoa rala e pálida flutuava pelo ar, envolvendo toda a casa rústica. Até mesmo a árvore frondosa e antiga no pátio parecia taciturna e sem vida.
Cruzando o pátio acanhado e passando pelo portão principal, descortinava-se uma via sinuosa que se estendia à frente. Pavimentada com pedras rústicas, mal comportava três pessoas lado a lado. Ao longo do caminho, casas erguiam-se em arranjo irregular, ladeadas por potes de água quebrados, cestos de palha e outros pertences abandonados ao acaso pelos moradores vizinhos.
Deveria ser o cenário comum de um vilarejo qualquer, mas, sob a névoa acinzentada que agora cobria toda a Vila Nanhuai, o silêncio era absoluto. Não se ouvia o canto de um galo nem o latido de um cão, o que tornava a atmosfera inexplicavelmente sinistra.
Para Mu Congyun, porém, que sempre sentira verdadeira aversão a aglomerações, aquele ambiente deserto e quieto trazia uma sensação inesperada de alívio e segurança. Ao caminhar, cada gesto seu parecia um pouco mais leve.
Somente ao alcançar a casa vizinha, situada a pouca distância, voltou a tensionar o corpo antes de bater à porta.
O som das batidas quebrou abruptamente o silêncio. A rua adormecida pareceu despertar num instante: de todos os lados começaram a surgir ruídos sutis de portas entreabertas, e logo múltiplos olhares furtivos pousaram sobre as costas de Mu Congyun.
O anfitrião demorava a atender, e a mensagem de transmissão espiritual enviada ao irmão júnior Jin Ni permaneceu sem resposta. Sentindo aqueles olhares cravados como agulhas em suas costas, a respiração de Mu Congyun começou a pesar. Por fora, contudo, manteve a expressão indiferente, ergueu a mão e bateu novamente à porta.
Por fim, a dona da casa atendeu.
Uma idosa em trajes rústicos de tecido cinza-azulado entreabriu com cautela apenas uma fresta. Um único olho observava pela abertura, e a voz áspera carregava desconfiança e impaciência evidentes:
— O que foi?
Mu Congyun calou-se por um instante.
Estavam na Vila Nanhuai havia apenas três dias. No primeiro dia, ao procurarem abrigo, fora essa mesma senhora que os acolhera com enorme simpatia e presteza. Como a residência tinha poucos quartos vagos, o grupo acabou se dividindo entre três casas.
Passados apenas dois dias, ela adotava aquela postura fria e distante.
Mudou rápido demais de atitude, pensou ele consigo mesmo. Mu Congyun posicionou-se mais ao centro da fresta para que ela o visse com clareza antes de responder com brevidade:
— Vim procurar meu irmão júnior.
Ao reconhecer o rosto dele, no entanto, a velha exclamou com espanto, como se visse um fantasma:
— O senhor ainda está aqui?!
Aquilo soava quase como se perguntasse se ele ainda continuava vivo.
Mu Congyun franziu o cenho de leve, sentindo que havia algo errado naquelas palavras. Sem talento para jogos verbais ou provocações, limitou-se a insistir:
— Vim procurar meu irmão júnior.
A sensação dos olhares colados em suas costas já começava a deixá-lo inquieto. Tinha ímpetos de virar as costas e partir, mas a razão o manteve firme no lugar, aguardando que a idosa abrisse a porta.
A expressão dele, contudo, revelava um esforço contido que a mulher interpretou de outra forma. Sem ousar encará-lo por mais tempo, ela abriu a porta com relutância e justificou-se num tom vacilante:
— Os mestres imortais partiram para a montanha dos fundos logo cedo. Achei que o senhor tivesse ido junto.
A montanha dos fundos?
Atrás da Vila Nanhuai estendia-se a Floresta Velha, uma mata densa e fechada que cobria o céu. No segundo dia após a chegada, já haviam vasculhado a área por completo sem encontrar qualquer vestígio anormal.
Por que Jin Ni iria para lá de repente?
Não fazia sentido. Um sobressalto atravessou os pensamentos de Mu Congyun: se Jin Ni tivesse descoberto algo, jamais agiria sem antes avisá-lo.
A missão de investigar a anomalia na Vila Nanhuai estava sob a liderança dele e de seu irmão júnior Jin Ni.
Um mês antes, o Mar da Névoa Corrosiva sofrera uma perturbação violenta, e a Barreira das Dez Direções fôra atingida, abrindo brechas. A Névoa Corrosiva avançou sobre vilarejos nas fronteiras da Região Ocidental, provocando mutações em diversas localidades. Ao receberem os relatos, as principais seitas enviaram discípulos das redondezas para conter as anomalias e resgatar a população mortal. Xuanling, como líder das seitas daoístas e maior potência da Região Ocidental, assumira a responsabilidade pelos resgates nas fronteiras de Zhongzhou e Dongzhou.
A Vila Nanhuai fora inicialmente designada a Su Ming, discípulo interno do Palácio Jinkui, um dos nove palácios de Xuanling. No entanto, logo após chegar com seu grupo, perderam o contato, e a chama de sua alma mantida no Palácio Jinkui começou a enfraquecer gradativamente. O Palácio Jinkui enviou em seguida mais duas levas, totalizando dezesseis discípulos para investigar a situação, mas todos desapareceram sem deixar rastro, como pedras atiradas ao fundo do mar.
Diante do agravamento do quadro, a incumbência foi transferida ao Palácio Tianji, cabendo a ele e ao irmão júnior Jin Ni liderar a comitiva de averiguação.
Aquele era o terceiro dia desde a chegada à Vila Nanhuai.
Nos dois dias anteriores, vasculharam o vilarejo de ponta a ponta sem encontrar o menor vestígio de qualquer discípulo de Xuanling. Ao indagarem os habitantes locais, recebiam apenas negativas ou afirmações de que nada tinham visto; a maioria simplesmente trancava as portas, tratando os cultivadores como uma praga e recusando até o diálogo.
Se não fossem as poucas famílias dispostas a acolhê-los, teriam sido forçados a acampar ao relento.
Contudo, refletindo agora, a mudança drástica de postura da idosa que se oferecera para recebê-los tornava-se extremamente suspeita.
Temendo o pior, Mu Congyun não perdeu mais tempo com a mulher. Passou por ela e dirigiu-se a passos largos até os aposentos onde Jin Ni e os outros estavam instalados, mas encontrou o quarto completamente vazio, sem qualquer indício que revelasse o que ocorrera.
Seguiu de imediato para a outra residência onde o restante do grupo se hospedara, mas o resultado foi o mesmo.
A versão do segundo anfitrião coincidia com a da velha: todos haviam partido rumo à montanha dos fundos.
O que poderia haver de tão incomum naquela montanha?
Contendo a urgência, pôs-se a caminho da montanha dos fundos. Pelo trajeto, os olhares furtivos continuavam a segui-lo como sombras, fazendo-o acelerar o passo.
A área da montanha pertencia aos domínios da Vila Nanhuai, situada a cerca de um quilômetro do vilarejo. Ao chegar voando sobre a espada, Mu Congyun evitou entrar de imediato na mata, ponderando sobre a veracidade do relato da mulher.
Embora os moradores do vilarejo fossem estranhos, eram indubitavelmente pessoas comuns. Jin Ni, apesar de nem sempre se dedicar com afinco ao cultivo diário, já alcançara a Grande Perfeição do Reino do Desprendimento da Casca Mortal, a um passo de ingressar no Reino do Esquecimento dos Vínculos Mundanos. Mortais comuns jamais teriam força suficiente para ameaçá-lo.
Ainda assim, isso não garantia que a mulher estivesse dizendo a verdade.
Os dois grupos anteriores do Palácio Jinkui haviam desaparecido de forma súbita, e agora o sumiço repentino de Jin Ni e dos demais confirmava que algo grave acontecia ali.
Pairando no ar sobre sua espada, Mu Congyun perscrutou a Floresta Velha abaixo. Ao constatar que não havia nenhuma anomalia visível, embainhou a lâmina e deu os primeiros passos em direção à mata.
No instante em que cruzou a borda, porém, um arrepio violento percorreu-lhe a espinha e fez seu couro cabeludo formigar. Recolheu o pé por instinto e fitou o arvoredo adiante com profunda desconfiança.
— No momento exato em que pisou na floresta, teve a nítida impressão de que incontáveis olhares se voltavam para ele.
Era como se diante de si não se erguessem troncos de árvores, mas figuras humanas.
No instante em que pisou o limiar da Floresta Velha, aquelas silhuetas imóveis pareceram virar a cabeça em uníssono, fitando-o em absoluto silêncio.
A sensação provocou-lhe calafrios.
Preferiria mil vezes enfrentar cadáveres ambulantes e criaturas demoníacas a ser observado por tanta "gente".
O vento soprava por entre as copas com um farfalhar suave. Embora a paisagem parecesse serena e o ar puro, o peito de Mu Congyun continuava apertado e a respiração, difícil.
A vontade de dar meia-volta era imensa.
Após um breve conflito interno, a lealdade aos seus condiscípulos falou mais alto que o receio. Recompondo o ânimo, forçou-se a entrar na mata.
A atmosfera daquele bosque era bizarra demais, em nada condizente com os relatórios das averiguações anteriores.
Com cautela, evitou avançar para o interior e começou a inspecionar os troncos ao redor. Sob a sensação quase tangível de ser vigiado, examinou mais de uma dúzia de árvores sem encontrar vestígio algum de irregularidade.
Seria possível que o problema não estivesse nas árvores?
Enquanto ponderava outras hipóteses com a testa franzida, uma voz ressoou subitamente bem ao lado de seu ouvido:
— Ora, ainda tem alguém vivo por aqui?
O tom carregava leve surpresa e soou a centímetros de distância. Reagindo com extrema rapidez, Mu Congyun recuou num salto e desembainhou a espada, encarando com vigilância a figura que surgira a seu lado sem fazer ruído.
— Reflexos rápidos. — O recém-chegado falou em tom de deboche. Pairava no ar com as mãos postas às costas, trajando um vistoso e luxuoso manto carmesim que ondeava ao vento. Os cabelos compridos, parcialmente soltos, balançavam com a brisa; entre os fios escuros, viam-se nuances em vermelho-escuro que combinavam com os brincos dourados que lhe desciam até os ombros, conferindo-lhe uma presença extravagante.
Exibicionismo atrai raio, comentou Mu Congyun em silêncio. Seus olhos, contudo, fixaram-se na máscara dourada que cobria o rosto do homem e nos chamativos brincos dourados.
Os adornos eram peculiares: na parte superior havia uma gaiola de ouro e, na parte inferior, longas franjas douradas que roçavam os ombros. O que realmente chamou a atenção de Mu Congyun não foi o formato singular da joia, mas o fato de haver um par de pássaros aprisionado dentro das gaiolas douradas.
Eram duas pequenas aves de plumagem escarlate, miúdas como o polegar de um homem adulto, encerradas naquelas grades como se fossem esculturas minuciosas de um artesão refinado.
Aquela peça recordou a Mu Congyun um boato singular que chegara da cidade de Fengdu à Região Ocidental no ano anterior: o temido Rei Yama de Duas Faces, que reinara absoluto em Fengdu por quase duzentos anos, fora derrotado por um jovem desconhecido.
O Rei Yama de Duas Faces era formado por dois irmãos gêmeos cuja verdadeira forma pertencia à feroz raça dos Chisun. Por carregarem uma centelha da linhagem de Zhuque, cada um deles possuía cultivo no estágio inicial do Reino do Céu Supremo; quando lutavam juntos, sua força rivalizava com a de grandes mestres no ápice desse mesmo reino.
No entanto, esses mesmos irmãos, capazes de enfrentar o topo do Reino do Céu Supremo, foram subjugados com extrema facilidade.
Não apenas perderam o confronto, como também sofreram um selamento imposto pelo jovem, forçados a retornar à forma primordial de aves e trancafiados em pequenas gaiolas de ouro como brincos, sendo exibidos diariamente pelas ruas.
De soberanos temidos em Fengdu, tornaram-se motivo de zombaria.
E o jovem de identidade misteriosa assumiu o lugar deles, tornando-se o novo senhor do Palácio do Filho Celestial em Fengdu. Pela origem enigmática e pelos modos imprevisíveis e cruéis, passou a ser chamado pelos habitantes de Fengdu de Filho Celestial Espectral.
Quando a notícia alcançou a Região Ocidental, fora tratada apenas como uma história curiosa para animar conversas.
Afinal, as hostes de Fengdu pertenciam ao caminho dos demônios e espíritos, historicamente inconciliáveis com as seitas ortodoxas da Região Ocidental. Embora ambas as partes mantivessem uma trégua velada havia muitos anos, conflitos internos entre os demônios de Fengdu eram sempre vistos com bons olhos pelos forasteiros.
Mu Congyun jamais imaginara encontrar o afamado Filho Celestial Espectral dentro das fronteiras da Região Ocidental. Fitando a máscara dourada de arabescos intrincados e deparando-se com as pupilas verticais e douradas sob ela, um alerta disparou em sua mente. Suspeitou na hora de que a anomalia na Vila Nanhuai e o sumiço dos discípulos de Xuanling estivessem diretamente ligados àquele homem.
Apertou o punho da espada, acumulando energia em silêncio.
— Um discípulo de Xuanling? — Shen Qi reparou na placa de jade presa ao cordão da espada alheia e passou a observá-lo com genuíno interesse, exibindo a familiaridade de quem reencontra um velho conhecido. Diante do silêncio dele, murmurou para si mesmo: — Será que é mudo?
Mudo é você.
Mu Congyun cerrou os lábios com desagrado, sentindo-se ofendido por aquele olhar descarado. Sem recorrer a floreios, brandiu a espada, lançando um golpe de energia cortante que rasgou o ar direto contra o intruso.
Ao notar que se tratava de uma espada de pessegueiro sem fio, Shen Qi não deu grande importância ao ataque. Agitou a manga para interceptá-lo, mas logo soltou uma exclamação de surpresa, fitando estupefato o rasgo aberto em seu tecido.
Virou o rosto para Mu Congyun e reclamou em tom acusatório:
— Você rasgou meu manto espiritual. Era o meu favorito.
Mu Congyun não se deu ao trabalho de responder.
Antes tivesse aberto um rombo no seu peito, pensou, mudando o movimento para uma estocada direta.
A intenção de espada transbordou com vigor, mas sem carregar a menor sede de sangue.
Contudo, subestimar aquela lâmina desprovida de corte seria um erro fatal.
Shen Qi recuou com leveza, observando a árvore atrás de si — grossa como o tronco de um homem adulto — ser decepada com um único golpe limpo. Soltou um estalo com a língua:
— A Espada de Tathagata: o Dao Celestial como coração, o coração como lâmina, a lâmina conectada ao divino. Nunca imaginei que Xuanling abrigasse alguém nascido com o Coração da Espada. Qual é o nome da sua espada?
Esse sujeito fala mais que um papagaio, pensou Mu Congyun, franzindo o cenho de leve.
Xuanling era a líder das seitas daoístas, e o Palácio Tianji, mestre nas artes das efemérides celestiais e do destino, ocupava o topo dos nove palácios. Seu mestre, Xie Cifeng, era um prodígio sem precedentes em Xuanling, inigualável em feitiços, talismãs, matrizes de espadas e adivinhações. Ele próprio, no entanto, como primeiro discípulo direto, possuía aptidão modesta para essas disciplinas, incapaz de dominar talismãs e adivinhações, restando-lhe apenas a dedicação incansável à prática da espada ao longo de dez anos.
Dez anos de treino árduo e forja interior. Apenas recentemente alcançara algum domínio, mantendo a dignidade como primeiro discípulo de Xuanling sem manchar o renome do Palácio Tianji.
Seu mestre costumava dizer que sua espada não tinha fio e seu coração não abrigava sede de morte; cultivava a espada da compaixão, talhada para proteger todos os seres, razão pela qual a nomeara Beitian.
Mu Congyun ergueu a lâmina na horizontal, deslizou os dedos ao longo dela e entoou uma ordem firme:
— Rápido!
A espada resplandeceu num clarão prateado, dividindo-se em dez lâminas que pairaram ao redor de seu corpo com as pontas alinhadas na direção de Shen Qi. Ao baixar a mão em sinal de comando, as dez espadas voadoras precipitaram-se com a fúria devastadora de um trovão.
No mesmo instante, Mu Congyun transformou-se num raio de luz de espada e disparou na direção oposta.
O poder do Filho Celestial Espectral era incompreensível, situado no mínimo no Reino do Céu Supremo. Mu Congyun, por sua vez, encontrava-se na fase avançada do Reino do Esquecimento dos Vínculos Mundanos, a um passo da Grande Perfeição que lhe permitiria almejar o Céu Supremo. Contudo, na era presente, em que a energia espiritual rareava e o cultivo era árduo, transpor a distância de um pequeno estágio já se mostrava penoso, quanto mais a barreira de um reino inteiro.
Recuar e traçar um plano posterior era a escolha sensata.
O ataque com força total não passara de uma finta. Shen Qi dispersou o brilho das espadas com um movimento de manga e, fitando a silhueta que sumia ao longe, voltou a falar sozinho:
— Então não é mudo. E sabe fugir rápido... Desde quando Xuanling tem uma figura dessas?
Vasculhou com a testa franzida as parcas lembranças de sua vida passada, sem encontrar qualquer pista.
Na vida anterior, com exceção do mestre supremo da seita, o Venerável Daoísta Qingyang, Sikong Qingyang, que jamais se mostrara, os doze anciãos guardiões dos palácios sacrificaram-se sucessivamente para deter o avanço do Mar da Névoa Corrosiva e restaurar a Barreira das Dez Direções, sem que nenhum deles restasse vivo.
Aquele jovem de hoje, apesar da pouca idade, ostentava um Coração da Espada extraordinário. Com o tempo, certamente ocuparia uma posição de destaque em Xuanling.
No entanto, jamais o vira antes.
A presença daquele homem poderia se tornar uma variável imprevista.
Shen Qi tocou casualmente as franjas do brinco e perguntou:
— O que me dizem, vou atrás dele ou não?
Os irmãos Chisun permaneceram mudos.
— Por que não respondem? — Shen Qi sacudiu os brincos com mais força, enquanto pequenas chamas brotavam de seus dedos.
Os pequenos Chisun foram sacudidos para todos os lados, desdobrando-se para proteger as próprias penas das labaredas. Tomados de fúria, bateram as asas freneticamente, abrindo os bicos sem conseguir emitir um único som além de xingamentos mudos.
Shen Qi finalmente se lembrou e respondeu a si mesmo:
— Esqueci que vocês tagarelam demais e foram silenciados. Deixa para lá, os assuntos importantes vêm primeiro.
Ergueu os olhos para observar o céu e lançou um olhar em direção ao centro da Floresta Velha. Com um sorriso de expectativa no rosto, moveu-se num piscar de olhos rumo às profundezas da mata fechada.
— A anomalia começou.
Latest Chapters
Quando a espada Beitian, transformada em pessegueiro, finalmente cobriu o sopé da Montanha Zhongshan
Mu Congyun se instalou ao pé da montanha. No Abismo da Extinção não havia sol nem lua, e a Tumba do
Cruzando a Barreira das Dez Direções e pisando no Caminho dos Cinco Fantasmas, alcançava-se a orla d
Xie Cifeng silenciou por um momento antes de falar em tom pausado: — Você sabe de onde vem a Névoa







