Sinopse
Durante dez anos, a especialista em cibersegurança Nora Oliveira viveu presa à necessidade compulsiva de ser indispensável para o seu melhor amigo, Caleb Silveira. Quando Caleb entra em desespero pelo noivado de Vanessa Valente com o magnata da tecnologia Elliot Santana, Nora tenta mais uma vez intervir, mas acaba descobrindo um perigoso esquema de espionagem corporativa. A situação foge ao controle com a chegada de Adrian Silveira, o irmão mais velho e enigmático de Caleb, que se une a ela para desmascarar a fraude em pleno altar. Conforme as investigações avançam, uma antiga e violenta operação do passado vem à tona, desencadeando a vingança implacável de Victor Matos. Forçada a encarar o perigo mortal e as próprias feridas emocionais, Nora rompe com o ciclo de autossacrifício, assume o protagonismo de sua vida e constrói, ao lado de Adrian, uma relação pautada no respeito, na autonomia e no verdadeiro afeto.
Capítulo1
Às duas e dezessete da madrugada, o celular de Nora Oliveira vibrou sobre a mesa de cabeceira.
Ela não atendeu de imediato.
Eram poucas as pessoas que ligariam àquela hora, e Nora já imaginava quem era. Apenas Caleb Silveira a procuraria tão tarde. Ao longo dos últimos dez anos, sempre que Vanessa Valente o magoava ou ele se metia em alguma confusão, Nora recebia uma chamada dele no meio da noite.
Ficou olhando o nome na tela, esperando o aparelho vibrar por alguns segundos antes de estender a mão, hesitante, e pegá-lo.
— Caleb?
Do outro lado da linha, não houve resposta imediata, apenas uma respiração pesada. Parecia alguém que acabara de correr uma longa distância ou que estivera chorando. A voz trazia um tom contido e sufocado, como se tentasse não demonstrar fraqueza.
— Nora — disse ele por fim, com a voz rouca. — Você pode vir aqui?
Nora sentou-se na cama e pousou os pés no chão frio.
— O que aconteceu?
— Não sei — respondeu ele, embargado. — Só... preciso ver você.
Nora olhou a hora e depois voltou a atenção para a janela. A cidade ainda mantinha algumas luzes acesas, e os pingos de chuva escorriam devagar pelo vidro. Ela já estava pronta para dormir, pois no dia seguinte teria uma reunião importante sobre um projeto de segurança digital. Contudo, quando Caleb dizia que precisava dela, era quase impossível recusar.
Ela nunca conseguia dizer não.
Desde que os pais se separaram em sua infância, Nora aprendera muito cedo uma lição: quando alguém dizia "preciso de você", isso significava que ela tinha valor. Se precisavam dela, não a abandonariam com facilidade. Ela se apegava a essa sensação de ser necessária, mesmo sabendo que não era um sentimento saudável, pois nunca encontrou uma forma melhor de provar sua importância para os outros.
— Mande a localização — disse ela.
— Você vem mesmo?
— Claro que vou.
Caleb ficou em silêncio por alguns instantes, como se respirasse aliviado. Depois de receber o endereço, Nora vestiu um suéter preto e calças compridas, pegou o casaco e hesitou junto à porta.
Pensou em levar o kit de primeiros socorros, mas hesitou, temendo parecer acostumada demais a limpar a bagunça dele. No entanto, após fechar a porta, suspirou, voltou ao quarto e colocou o estojo na bolsa.
Sabia muito bem que Caleb, provavelmente, estaria ferido de novo.
Vinte minutos depois, Nora estacionou diante do prédio de Caleb. A chuva continuava caindo, deixando o asfalto brilhante sob a luz dos postes. Ela subiu pelo elevador até o sétimo andar e, ao chegar ao apartamento, notou que a porta estava entreaberta.
Lá de dentro veio o som de vidro quebrando.
Nora bateu à porta e chamou, cautelosa:
— Caleb?
Houve apenas silêncio. Ninguém respondeu.
Sem poder esperar mais, pegou a chave reserva e abriu.
A iluminação interna estava fraca. A primeira coisa que a atingiu foi o cheiro forte de álcool; em seguida, viu uma luminária caída na sala.
Uma garrafa na mesinha de centro fora estilhaçada, espalhando cacos por todo o tapete. Caleb estava sentado no chão, encostado no sofá, com a mão direita apoiada no chão, exibindo um corte profundo na palma.
Ele levantou os olhos avermelhados na direção dela, parecendo um animal ferido.
— Você veio mesmo.
— Onde mais eu estaria? — Nora sentiu uma pontada de irritação com o estado dele. Pousou a bolsa e foi até onde ele estava. — Me dê a mão primeiro.
— Achei que você fosse rir de mim.
— Quando o sangue parar de correr, eu decido se acho graça ou não.
Caleb esboçou um sorriso fraco, mas não estendeu a mão.
Com os olhos marejados e a voz embargada, desabafou:
— Vanessa vai se casar.
Nora já sabia.
As redes sociais estavam tomadas por notícias sobre o noivado de Vanessa Valente com Elliot Santana. Nas fotos, Vanessa usava um vestido branco e posava ao lado de Elliot, exibindo um enorme anel de diamante no dedo.
Ainda assim, ouvir aquilo da boca de Caleb tornou o ar da sala ainda mais pesado.
— Eu sei — respondeu Nora, mantendo a expressão neutra enquanto se agachava para recolher um caco de vidro limpo no chão. — Mas mesmo que ela vá se casar, você não precisava destruir a casa inteira e ficar nesse estado.
— Ela não vai se casar de verdade com o Elliot — murmurou Caleb, buscando no olhar de Nora uma confirmação para sua ilusão. — Eles só estão fingindo, não é? É tudo mentira. A Vanessa não ama o Elliot, ela só está fazendo isso para me provocar.
Ao ouvir aquela negação absurda, o canto dos lábios de Nora se contraiu em um sorriso amargo.
— Pela foto, eles parecem bem apaixonados.
— É só fachada! — gritou Caleb, alterando-se de repente. — É a mim que ela ama. Ela está com o Elliot porque o pai a obrigou. O Elliot tem dinheiro, influência e uma empresa que a família dela precisa. Mas ela não sente nada por ele.
Após o desabafo, o silêncio caiu sobre a sala. Nora não disse mais nada, sentindo apenas o cheiro metálico de sangue no ar. Caleb segurava um caco de garrafa e, em sua agitação, apertava o vidro com tanta força que cortava ainda mais a própria carne.
Contudo, parecia imune à dor, repetindo sem parar:
— Ela só ama a mim... Não gosta dele...
O coração de Nora apertou. Ela pegou o algodão com desinfetante e puxou a mão dele com firmeza.
— Você perdeu o juízo? De que adianta ficar se machucando desse jeito? Como pode ter tanta certeza de que a Vanessa te ama?
— Porque ela me disse! Ela jurou que me ama e que só precisa ficar com outra pessoa por causa da família.
— E o que mais ela disse?
— Disse que, se eu esperar por ela, ela vai voltar.
Nora demorou a responder. Limpou o sangue com o algodão, fazendo Caleb recuar com um gemido de dor.
— Vai com calma.
— Se não queria sentir dor, não devia ter atirado a garrafa contra a parede nem cortado a própria mão desse jeito.
— Eu não joguei garrafa nenhuma.
— Ah, então ela voou sozinha na parede?
Caleb não respondeu. Observou Nora inclinada, cuidando de seu ferimento, e a raiva em seu olhar foi cedendo lugar ao cansaço.
— Ela não era assim — murmurou. — Quando nos conhecemos, ela vinha me procurar de madrugada. Não ligava para o que os outros pensavam. Dizia que não precisávamos de dinheiro nem de casamento.
Nora já ouvira aquelas histórias inúmeras vezes.
Caleb e Vanessa haviam se conhecido em um baile de gala beneficente. Naquela noite, Vanessa usava um vestido longo prateado e segurava uma taça intocada de champanhe, sorrindo para todos no salão. Caleb dizia que ela parecia a única pessoa pura no meio daquele mundo de aparências, inocente e intocada, como um anjo.
E ele se apaixonara perdidamente por aquela imagem.
Com o tempo, Vanessa partia e voltava, repetidas vezes. A cada partida, Caleb jurava que tudo havia acabado; a cada retorno, ele voltava a acreditar que aquilo era o verdadeiro amor.
E Nora esteve sempre ao lado dele.
Fora ela quem o ajudara a recuperar contas bloqueadas por Vanessa, quem resolvera suas confusões depois de noites de bebedeira e até dirigira no meio da madrugada até o aeroporto só para resgatá-lo de mais uma perseguição frustrada.
Ela repetia para si mesma que fazia tudo aquilo apenas por amizade.
Mas, se era só amizade, por que se importava tanto quando ele não reparava em um corte de cabelo novo? Por que precisava se policiar para não criar expectativas a cada aproximação dele?
— Pronto — disse Nora, colando o curativo. — O corte não foi fundo, não precisa de pontos.
Caleb olhou para a fita adesiva branca em sua palma.
— Você sempre sabe o que fazer.
— Porque você sempre faz besteira.
— Você vai me ajudar para sempre?
A pergunta soou leve, quase casual.
As mãos de Nora paralisaram.
Não era aquilo que ela desejava ouvir. Queria ouvir "você é importante para mim" ou "não sei o que seria de mim sem você". Mas Caleb não disse nada disso; apenas ergueu os olhos, aguardando uma resposta que o deixasse seguro.
— É melhor você começar a arrumar esta casa — desconversou Nora.
Caleb riu fraco.
— Você vai comigo ao casamento?
— O quê?
— Eu vou atrás dela. — Ele se apoiou no sofá para ficar em pé, chutando os cacos para o lado. — Não acredito que ela queira se casar com o Elliot de verdade. Ela deve estar esperando que eu vá buscá-la.
— Caleb, um casamento não é um encontro secreto entre vocês dois. É um evento público. A família da Vanessa, a do Elliot e toda a imprensa estarão lá.
— É por isso que eu preciso de você.
— Você precisa de alguém para comprar as passagens, dirigir o carro e inventar uma desculpa quando você armar um escândalo.
— Eu preciso de você — repetiu ele, desta vez com um tom bem mais sério. — Nora, eu só confio em você.
O silêncio tomou conta do cômodo.
Nora sabia que aquelas palavras não significavam amor. Sabia que Caleb só queria alguém que nunca fosse embora para acompanhá-lo no meio do perigo. Mesmo assim, naquele instante, algo no fundo do seu peito estremeceu.
Talvez, desta vez, as coisas fossem diferentes.
Talvez, quando o acompanhasse até Vanessa, Caleb finalmente enxergasse quem sempre esteve ao seu lado.
— Quando nós vamos? — perguntou ela.
Os olhos de Caleb se iluminaram.
— Amanhã.
— O casamento é só daqui a três dias.
— Eu não posso esperar três dias.
— Claro — disse Nora, varrendo os cacos para a lixeira. — Paciência nunca foi o seu forte.
Caleb foi até ela e tentou abraçá-la por trás. O corpo de Nora ficou tenso por um segundo, mas ela não se afastou.
— Obrigado — sussurrou ele.
O queixo dele tocou levemente o ombro dela, e a respiração quente roçou seu ouvido. Nora sentiu o cheiro de álcool misturado ao perfume amadeirado já tão familiar. Fechou os olhos, lembrando a si mesma de não dar significado a nenhum daquele contato.
Ainda assim, guardou cada detalhe na memória.
Nesse instante, o telefone tocou. Era Tessa Oliveira.
Nora se desvencilhou dos braços de Caleb e atendeu.
— Onde você está? — perguntou Tessa.
— Na rua.
— Passa das duas da manhã e você diz que está na rua?
— Estou no apartamento do Caleb.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
A voz de Tessa esfriou no mesmo instante:
— Aconteceu alguma coisa com a Vanessa de novo?
— Ele se machucou.
— E você está sempre lá quando ele se machuca. Nora, ele não é assim por falta de alguém para cuidar dele.
— Tessa, agora não é o momento para essa conversa.
— E quando vai ser? Quando ele casar com a Vanessa e você continuar limpando a bagunça da vida de casado dele?
Caleb estava perto e ouviu a conversa.
Nora baixou a voz:
— Eu só vou com ele ao casamento.
— Você sabe que isso não é ir ao casamento de um amigo. Você está indo ajudá-lo a roubar uma mulher que não pertence a ele.
Nora hesitou antes de murmurar:
— Mas ele está sofrendo agora.
— Essa foi a escolha dele.
As palavras atingiram Nora em cheio. Ela quis rebater, mas percebeu que não tinha argumentos.
O tom de Tessa suavizou um pouco:
— Você vive dizendo que as pessoas precisam de você. Mas quem realmente precisa? O Caleb só precisa de alguém por perto quando está sofrendo, e isso não significa que ele vá ficar ao seu lado quando você precisar.
Nora olhou para Caleb.
Ele permanecia ali, de olhos baixos, como se não tivesse escutado nada, embora soubesse que ouvira cada palavra.
— Eu volto logo para casa — disse Nora.
— Você sempre diz isso.
Assim que a ligação foi encerrada, restou apenas o som da chuva batendo na janela.
Caleb foi até a mesa e pegou o celular. A tela se acendeu com uma nova mensagem de Vanessa:
"Se você ainda me quer, venha antes de sábado. E não traga ninguém."
Nora leu o texto.
Caleb também.
A primeira reação dele foi virar a tela do aparelho contra a mesa.
— Ela está me esperando — murmurou ele.
Nora não respondeu.
Deveria lembrá-lo de que aquela mensagem não trazia promessa alguma, nenhuma explicação e nenhuma garantia real. Mas não disse nada.
Percebeu, de repente, que aceitar acompanhá-lo não era apenas para protegê-lo.
Ela também queria ver com os próprios olhos se Vanessa realmente voltaria atrás no último minuto.
Se Vanessa desistisse dele, será que Caleb finalmente veria quem era a pessoa que sempre esteve ali?
Nora se levantou de supetão, guardou o estojo de primeiros socorros na bolsa e vestiu o casaco.
— Saímos amanhã às nove — avisou. — Tente dormir e não beba mais nada esta noite.
Caleb assentiu.
— Nora.
— O que foi?
— Você não vai me deixar sozinho lá, vai?
Ela olhou para ele demoradamente antes de responder:
— Não vou.
Era a frase que mais repetira a Caleb ao longo da vida e, ao mesmo tempo, a promessa que nunca cumprira para si mesma.
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