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Como Chefe da Máfia, Recuso-me a Ser um Figurante

Como Chefe da Máfia, Recuso-me a Ser um Figurante

Last Updated: 2026-05-28 10:19:21
Language:  Português4+
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Synopsis

Viktor Orlov, o imperador do submundo, encontra seu fim no auge de seu poder, apenas para descobrir que renasceu como Caelus Thorne, um jovem de quinze anos em um mundo de magia e monstros. O mais absurdo? De acordo com suas memórias fragmentadas, ele é apenas um figurante destinado a um fim trágico na história deste novo mundo.


Rejeitando o roteiro do destino, o lorde do crime, com a experiência de quarenta anos em poder e estratégia e um sistema que desafia os céus, ingressa na academia de superpoderes mais prestigiada do mundo. Desta vez, ele não será um herói, muito menos um personagem secundário. Ele esmagará todos os "protagonistas" e se tornará o único a ditar as regras


Chapter1

O vento no trigésimo andar era um predador solitário. Uivava pelos desfiladeiros de aço da cidade, rasgando a figura isolada no telhado. Mas Viktor Orlov não lhe dava a mínima atenção.


Para ele, aquilo era um ritual sagrado.


Ele não estava apenas comendo; executava um ato de desafio contra um fantasma que o assombrava havia quarenta anos. O fantasma de um garoto faminto de nove anos em uma favela esquecida, um menino que um dia matara um homem por um pedaço de pão duro. A fome daquele garoto tinha sido um vazio físico e corrosivo. Desde então, a fome de Viktor havia evoluído. Transformara-se em uma fome por tudo.


Tudo no prato de porcelana à sua frente era um testamento de sua vitória. O Wagyu A5 selado, com seu marmoreio formando uma teia delicada de pura decadência, era um luxo que ele escolhera pessoalmente. Os microverdes, arranjados com precisão artística, foram cultivados em suas próprias fazendas hidropônicas automatizadas. Ele mesmo preparara a refeição, do início ao fim. Não porque precisava, mas porque podia. Era a expressão máxima de controle, uma declaração silenciosa de que não estava mais à mercê do mundo para o seu sustento. Ele era o mundo.


Cortou um pedaço da carne, a lâmina da faca de prata sussurrando contra o prato. O som era limpo, preciso, uma ilha de ordem na sinfonia caótica da cidade lá embaixo. Mastigou devagar, de forma deliberada, saboreando a explosão de sabor na língua. Era esse o gosto do poder. Não a gritaria brutal em um covil de gângsteres, nem o estalo frio do cão de uma arma, mas aquilo. A capacidade silenciosa e absoluta de ter exatamente o que se quer, quando se quer.


Enquanto levava o último pedaço aos lábios, o telefone via satélite vibrou. Uma única e aguda vibração sobre a mesa de vidro.


Não vacilou. Colocou o bocado na boca, mastigou e engoliu. Só então limpou a boca com um guardanapo de linho, os movimentos tão calmos quanto o avanço de uma geleira. Sabia quem era e sabia o que aquilo significava. O fechar das cortinas.


— Fale — disse ele, a voz baixa e áspera, desprovida de emoção.


— Chefe! Eles estão aqui! Invadiram os andares inferiores! Os federais, a Interpol... todos eles! O senhor precisa FUGIR AGOR...


BAM. BAM. BAM.


O estampido seco dos tiros cortou a súplica distorcida. Seguiu-se um som úmido e gorgolejante, e então... silêncio. Um silêncio mais profundo que o do vento.


Viktor não suspirou. Um suspiro era um alívio de pressão, a admissão de um fardo. Não sentia nenhum dos dois. Apenas segurou o telefone por um longo momento, um monumento a um soldado caído, antes de apertar os dedos. Com um estalo seco, o dispositivo avançado e criptografado partiu-se ao meio. Jogou as peças pela borda, observando-as desaparecer no abismo como duas almas perdidas.


Então, tinha chegado a esse ponto. Apoiou-se no parapeito, o mármore polido frio contra o tecido de seu terno sob medida. Podia ouvi-los agora, o uivo distante das sirenes crescendo em um coro, o zumbido das hélices dos helicópteros espancando o ar até a submissão. Estavam vindo buscá-lo. Os governos do mundo, pelos crimes que ele cometera. As famílias, pelas vidas que ele tirara.


Sabia por que o caçavam com uma obsessão tão singular. Não era por causa das ******, das armas ou do dinheiro de sangue que fluía pelas artérias do mundo. Era porque ele havia quebrado a regra não dita. Tinha predado não apenas os fracos, mas os outros predadores. Havia devorado outros sindicatos, outros cartéis, outras máfias, absorvendo-os para dentro do seu próprio império monolítico. Tornara o mundo do crime organizado e, ao fazê-lo, convertera-se em uma ameaça para o mundo da lei.


A espera não foi longa.


A porta pesada do terraço se abriu com estrondo, e uma enxurrada de oficiais táticos fortemente armados invadiu o espaço, as armas apontadas para o homem solitário junto ao parapeito. Entre eles, uma mulher deu um passo à frente. Não vestia equipamento tático, mas um sobretudo prático, o rosto pálido e abatido sob as luzes duras de segurança, a mandíbula travada com a determinação sombria de uma década. A oficial Evelyn Davies.


Ele se lembrava dela. A analista impetuosa da Interpol que fora uma pedra no seu sapato durante dez longos anos. Tinha sido a primeira a enxergar o padrão no caos dele, a primeira a entender que ele não era apenas mais um chefe da máfia. Ela havia levado a coisa para o lado pessoal.


Viktor sorriu, uma curva lenta e predatória nos lábios. — Oficial Davies. A que devo o prazer desta visita domiciliar? Não me lembro de termos um compromisso.


As mãos de Evelyn estavam cerradas em punhos ao lado do corpo. Quando a voz dela soou, saiu tensa com uma mistura de exaustão e adrenalina. — Acabou, Viktor. Não há mais para onde fugir.


— Fugir? — Ele riu, um som seco e rascante. — Minha cara, não fujo de nada há trinta anos. Diga-me, está animada? A promoção, as medalhas, a torrente interminável de contratos para livros e aparições em programas de entrevistas. A mulher que derrubou Viktor Orlov. Soa muito bem, não acha?


Ele estava tentando tirá-la do sério, reduzir aquela cruzada de dez anos a uma mera ambição mesquinha. Era o que sempre fazia. Encontrar a fundação de uma pessoa e rachá-la.


Mas Evelyn não mordeu a isca. Havia passado noites demais sem dormir estudando aquele homem, dissecando cada movimento seu, para cair num truque tão simples. Sua necessidade de capturá-lo era eclipsada por uma necessidade mais profunda e consumidora: entender.


— Só tenho uma pergunta, Viktor — disse ela, a voz firme agora, rasgando o vento. — Por quê?


— Por que o quê, exatamente, oficial? Vai precisar ser mais específica. Minha lista de realizações é um tanto extensa.


— Por que você continuou? — insistiu ela, dando um passo à frente, os colegas oficiais enrijecendo ao seu redor. — Você tinha tudo, anos atrás. Mais dinheiro do que jamais poderia gastar. Poderia ter comprado um país pequeno e vivido como um rei. Mas não fez isso. Empurrou-se para todos os cantos do globo, fez inimigos de todos, transformou-se no homem mais procurado do mundo. Para quê? Por que caminhar para o seu próprio túmulo?


Essa era a pergunta que lhe tirava o sono à noite. A pura e irracional tendência para a autodestruição em tudo aquilo. Desafiava todos os perfis criminais que já tinha estudado.


Viktor soltou uma gargalhada genuína desta vez, um som profundo e retumbante que ecoou pelo telhado. Olhou para aquela mulher, aquela mulher brilhante e determinada que o tinha perseguido até aos confins do mundo, e decidiu, nos seus últimos momentos, conceder-lhe a dádiva da verdade.


— Diga-me, agente Davies — disse ele, com o riso a desvanecer-se, fixando os olhos nos dela com uma intensidade desconcertante. — Alguma vez sentiu verdadeira fome? Não me refiro a saltar uma refeição. Falo daquela fome que nos corrói as entranhas, que nos escurece a visão, que faz com que a ideia de um simples pedaço de pão seco pareça a coisa mais bela do mundo.


Evelyn foi apanhada de surpresa.


— Eu sei que teve uma infância difícil...


— A senhora teve? — cortou-a ele, baixando o tom de voz, que se tornou cortante como um caco de vidro.


A natureza crua e pessoal da pergunta silenciou-a. Pensou na sua educação confortável, na sua vida segura.


— ...Não — admitiu ela em voz baixa.


— Eu fui essa criança durante os primeiros nove anos da minha vida — disse Viktor, a voz num quase sussurro que, no entanto, carregava mais peso do que um grito. — E aprendi a lição mais importante que um homem pode aprender: nunca há o suficiente.


Afastou-se da varanda, dando um passo na direcção dela. Os polícias ergueram as armas, mas ele ignorou-os; todo o seu mundo reduzia-se agora à mulher à sua frente.


— A fome ensina-nos a tirar. A tirar tudo aquilo em que conseguimos pôr as mãos, porque nunca sabemos quando é que as provisões vão acabar. Então, eu tirei. Tirei até me dizerem que já chegava. E depois percebi outra verdade.


Fez uma pausa, com um sorriso cruel a desenhar-se-lhe nos lábios.


— Aquilo a que chamam 'suficiente' é apenas um limite traçado na areia por pessoas que nunca tiveram verdadeira fome. E descobri mais uma coisa, Evelyn. A ganância humana não tem limites... e calha eu ser um desses humanos.


A simplicidade da sua confissão, a pura maldade impenitente nela contida, atingiu Evelyn com mais força do que qualquer golpe físico. Os milhares de vidas destruídas, as famílias separadas, tudo justificado por uma simples e insaciável ganância.


— E ainda ousa chamar-se humano? — cuspiu ela, quebrando finalmente a sua postura profissional, a voz a tremer de raiva. — E as vidas que destruiu?! Os maridos, pais e filhos que morreram para alimentar a sua ganância?! E eles?!


'Ah, aí está', pensou Viktor, sentindo uma vaga de cansaço profundo a tomar conta de si. 'A indignação moral. A ira justa. Tão previsível.'


Olhou para além dela, para a equipa da SWAT, para as luzes da cidade, para todo aquele mundo moralista que o condenava. O mundo que deixava crianças morrer à fome nos becos, mas que se indignava quando alguém da sua própria classe privilegiada era afectado.


Inclinou-se, falando num sussurro conspiratório apenas para ela.


— Eles? — Inclinou a cabeça. — Acha que eu me importo?


E com isso, antes que alguém pudesse reagir, virou-se e saltou o parapeito.


— Não! — gritou Evelyn, lançando-se para a frente, de mão estendida, como se pudesse puxá-lo da beira do abismo.


Chegou à borda mesmo a tempo de o ver. Ele não se agitava nem gritava. Caía de braços abertos como um messias, um sorriso largo e triunfante no rosto, de olhos fechados como que a saborear a onda inebriante do seu derradeiro acto de controlo.


Caía para a morte, mas parecia um homem que, finalmente e de verdade, aprendera a voar.


Foi assim que a vida de Viktor Orlov, o homem mais procurado do mundo, chegou ao fim.


Ou... terá chegado?

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