Estrela Predileta
简介
Amigos de infância e vizinhos de longa data, Estela Silveira e Diogo Ferreira tornaram-se rivais cheios de implicâncias mútuas após desentendimentos na adolescência. Quando um furto inusitado no campus da Universidade de Ciência e Tecnologia de Dongfu os reaproxima no terceiro ano de faculdade, Estela decide trabalhar como entregadora para conquistar sua independência financeira. Por uma reviravolta do destino, os dois acabam dividindo o aluguel de um modesto apartamento semissubsolo, onde a convivência diária, os perrengues compartilhados e uma cumplicidade redescoberta reacendem sentimentos há muito guardados.
Ao descobrir o sacrifício silencioso que Diogo fez por ela no passado, Estela finalmente compreende a profundidade do amor que os une. Entre o amadurecimento universitário, a superação de crises familiares, perigos inesperados e a reconciliação com o passado, o casal constrói um caminho sólido rumo ao casamento, à vida profissional e à chegada da pequena Clara Ferreira, consolidando uma trajetória doce, realista e repleta de afeto.
章节1
Era apenas meados de maio, mas o calor em Dongfu já se tornara desagradável.
Quando Estela Silveira conseguiu se espremer para fora do Refeitório 3 carregando três marmitas fumegantes, uma fina camada de suor já cobria sua testa. A camiseta e a calça jeans cheiravam à fumaça e comida do refeitório.
Quem diabos entendia por que o refeitório ficava tão lotado em pleno domingo ao meio-dia? Estela resmungava em pensamento enquanto caminhava em direção ao prédio do alojamento. Ao atravessar o estacionamento subterrâneo, ouviu de repente um lamento misturado de desespero, fúria e puro azar:
— Mas que puta sacanagem! De tanta gente nessa droga de faculdade, o ladrão tinha que mirar logo em mim, porra?!
O estacionamento subterrâneo era amplo e fresco, de modo que o berro ecoou pelas paredes, reverberando no ar por um bom tempo.
Estela olhou na direção do som e avistou um dos colegas de quarto de Diogo Ferreira: o gordinho Vítor Valente. Uma onda de profunda compaixão brotou em seu peito. Até quem tosquia ovelhas sabe variar de animal de vez em quando; como era possível que os ladrões só mirassem no Diego Valente?
Diogo não estava por perto, e Diego se encontrava sozinho. Estela hesitou por um instante, mas decidiu se aproximar para consolá-lo. Afinal de contas, ele fazia parte do grêmio estudantil e às vezes participava das inspeções de limpeza dos dormitórios do curso dela. Como líder do quarto, manter uma boa relação com as autoridades era sempre prudente.
Quando ela se aproximou, Diego ainda esmurrava o assento da moto elétrica, praguejando sem parar. Estela deu uma olhada no compartimento vazio da bateria, suspirou baixinho e o aconselhou com sinceridade:
— Gordinho, a regra básica da vida é não ostentar. Sua motinho custa mais de dez mil contos. Se não roubarem a sua, vão roubar de quem?
Indignado e magoado, ele rebateu:
— Eu sou só um gordinho com um pouco de grana, o que foi que eu fiz de errado? A culpa é da universidade! Já sumiu veículo aqui um monte de vezes e a segurança não faz nada, a polícia não pega ninguém... Ter o patrimônio dos alunos violado assim é pura negligência da faculdade!
Estela sabia que ele não estava de todo errado.
Contudo, cada caso exigia uma análise realista.
O estacionamento onde estavam ficava entre o Refeitório 3 e os prédios dos dormitórios, logo abaixo da Biblioteca 2. Diferente da Biblioteca 1, onde todos costumavam estudar, a Biblioteca 2 era um prédio menor, de apenas quatro andares. O piso térreo era sustentado por robustos pilares de concreto, e o vão livre criado sob a estrutura funcionava como estacionamento exclusivo para os estudantes.
Em tese, deixar os veículos dentro do campus deveria ser a opção mais segura, porém as câmeras de vigilância tinham pontos cegos. Para piorar, os seguranças eram relapsos e faziam de tudo para fugir de dor de cabeça. Toda vez que alguém ia pedir as gravações para investigar um furto, eles quase não colaboravam, restando aos alunos amargar o prejuízo em silêncio.
No fim, os estudantes eram sempre os trouxas da história.
— Gordinho, eu entendo perfeitamente o seu lado — disse Estela. Embora nunca tivesse sido furtada, também se sentia frustrada com a segurança do campus. Sem poder mudar a realidade, restava-lhe tentar acalmar os ânimos: — Mas, como a gente não consegue pegar o ladrão, o jeito é proteger o próprio patrimônio. Segue meu conselho: para de comprar moto cara. Aprende com o líder do seu quarto. Seja um pouco mais esperto, mais mão-de-vaca e descarado; assim ninguém passa a perna em você.
Diego ficou em silêncio por um instante.
Mana Estela, a senhora está elogiando nosso líder de quarto ou xingando o cara?
Considerando a rivalidade ferrenha e irreconciliável entre ela e Diogo Ferreira, no entanto, as chances eram de que estivesse xingando mesmo.
Em seguida, ele lançou um olhar pesaroso para a bicicleta de Diogo:
Uma mountain bike azul-marinho de segunda mão, enferrujada e caindo aos pedaços. Diogo a usava desde o início do primeiro ano; prestes a completar três anos de uso, continuava ali, intacta e intocada.
— O nosso chefe de quarto é meio ardiloso mesmo — admitiu Diego, dividindo-se entre a inveja e a admiração. — A dele nunca foi roubada...
Estela pensou consigo: Aquele Diogo tem mais artimanha que qualquer um. A bike dele foi garimpada direto do ferro-velho; que ladrão seria tapado o bastante para roubar uma sucata quase inutilizável? Duvido que levassem mesmo se ganhassem de graça.
Ela, contudo, era orgulhosa por natureza e jamais admitiria ficar atrás de Diogo em circunstância alguma. Ao ouvir o tom de reverência com que Diego comentava sobre a bicicleta intacta do amigo, retrucou sem pensar:
— A minha também nunca foi roubada! E a minha é bem mais nova que a dele, além de ser elétrica. — Emendou logo uma alfinetada para diminuir o rival: — Ele só escapa de ser furtado porque disfarça o veículo de lata-velha. Isso é mero truque barato; eu me garanto na pura sabedoria.
Diego se apressou em pedir conselhos com humildade:
— Mana Estela, poderia me ensinar essa sua sabedoria?
— Coisa mais simples do mundo: basta estacionar direto sob o campo da câmera de segurança. — Ao falar, ela apontou o queixo cheia de orgulho para a área coberta por uma das lentes. E então... travou. Puta merda, cadê a minha moto?!
Diego testemunhou toda a transição no rosto de Estela: da empáfia triunfal ao choque absoluto, culminando em dentes cerrados e uma fúria descontrolada.
Após alguns segundos de silêncio, perguntou com a voz tímida:
— Mana... por acaso a sua... também não foi levada?
Estela não respondeu.
Sim. A moto dela também tinha sido roubada.
Embora fosse um tanto feio admitir, ao descobrir que não era a única vítima, Diego sentiu um alívio súbito no peito. Não pôde deixar de murmurar:
— Pelo visto, a sabedoria do nosso chefe de quarto ainda é a mais eficiente.
Logo após soltar o comentário, percebeu que aquilo soava como lenha na fogueira e poderia enfurecer a garota. Tentou consertar às pressas:
— Não estou dizendo que a senhora é menos inteligente que ele, de jeito nenhum! Para mim, vocês dois são igualmente brilhantes e geniais. Como diz o ditado, ao lado do Dragão Oculto sempre há uma Pequena Fênix. Se ele é o Dragão, com certeza a senhora é a nossa incomparável Fênix!
Estela encarou-o com frieza.
Eu e o Diogo Ferreira, Fênix e Dragão?!
Quem é que ele pensa que está xingando?
Sem qualquer expressão no rosto, ela disparou em tom gélido e cortante:
— Você está me ofendendo.
Diego engoliu em seco.
Ficou claro que a bajulação tinha dado terrivelmente errado.
Estela marchou para longe tomada pela raiva, deixando Diego para trás sem saber o que fazer. Ao mesmo tempo, ele sentiu um leve assombro com o destino. A ligação entre seu líder de quarto e Estela parecia um carma cultivado ao longo de séculos — uma colossal e maldita sina. Não suportavam a cara um do outro, mas estudavam na mesma instituição desde o ensino fundamental até a faculdade, inseparáveis, sem que nenhum conseguisse se livrar do outro. Uma coisa inacreditável.
Depois de devanear por um momento, Diego foi até o refeitório comprar sua refeição e subiu com a comida para o alojamento.
Os quartos da Universidade de Ciência e Tecnologia de Dongfu eram divididos em três categorias: para quatro, seis ou oito pessoas. Os estudantes, contudo, não podiam escolher onde ficariam; a distribuição era feita de forma aleatória pela universidade. Os alunos de Engenharia de Telecomunicações, turma de Diego, tiveram sorte: logo no início do primeiro ano foram sorteados para o cobiçado quarto quádruplo, o mais luxuoso de todos.
Como era domingo, dois dos colegas haviam ido para casa. Ao empurrar a porta do quarto, Diego encontrou apenas o líder deles.
Diogo Ferreira vestia uma camiseta preta e calça de moletom cinza, sentado de modo despojado na cadeira de escritório ao lado da escrivaninha. O tronco esguio e definido repousava languidamente contra o encosto; uma das pernas compridas estava dobrada, enquanto a outra se estendia sob a mesa. O braço direito repousava esticado sobre o mouse, e o dedo indicador longo clicava de forma ritmada e despreocupada. Exalava indolência por todos os poros.
O jogo na tela condizia com seu estado: Campo Minado.
Ao ouvir o barulho da porta, Diogo ergueu os olhos amendoados de pálpebra sutil em direção à entrada:
— Voltou cedo desse jeito? Não ia sair para comer algo decente?
A voz dele soava despretensiosa e arrastada, carregando o timbre grave típico de um homem adulto, em perfeita harmonia com os traços angulosos e marcantes de seu rosto bonito.
— Roubaram a minha bateria de novo, não tem como sair — respondeu Diego, avançando pelo quarto com ar inconformado.
Diogo soltou um suspiro brando:
— Já falei um milhão de vezes para não ostentar, mas você não ouve. — Enquanto falava, voltou a atenção para a tela do computador, onde o Campo Minado continuava aberto. As pálpebras baixaram de leve, o olhar recobrando aquele desinteresse preguiçoso de sempre.
Diego colocou a comida sobre a própria mesa, despencou na cadeira e resmungou:
— Falou igualzinho à Estela Silveira. Impressionante a sintonia de vocês dois.
O indicador de Diogo estagnou sobre o botão do mouse. A expressão sonolenta ganhou um lampejo repentino de vivacidade, embora o tom de voz tenha se mantido displicente e debochado:
— Onde foi que você encontrou com ela?
A cama de Diego ficava do lado oposto à de Diogo, e os dois estavam sentados de costas um para o outro, de modo que ele não podia ver o semblante do colega. Respondeu com honestidade:
— No estacionamento subterrâneo, ué. — E acrescentou: — A moto dela também foi roubada.
Diogo deu uma risada baixa:
— E ela não começou a berrar na rua?
Diego hesitou por um momento:
— Eu fui a vítima que levou os tiros...
Diogo achou aquilo estranho:
— Por que ela foi xingar você?
Aquela garota podia ser um tanto feroz e bruta, mas nunca atacava ninguém sem motivo.
Em outras palavras, ela tinha uma esperteza ardilosa; mesmo quando arranjava confusão sem sentido, sempre dava um jeito de inventar uma justificativa plausível para parecer coberta de razão, fazendo o sangue dos outros ferver de ódio.
Diego coçou a cabeça, intrigado:
— Eu nem falei nada demais, até elogiei. Disse que ela era tão inteligente quanto você e comparei vocês dois ao Dragão Oculto e à Pequena Fênix. Isso não é um baita elogio de alto nível?
Você está querendo enaltecer ela ou me rebaixar?
Diogo soltou de imediato:
— Você mereceu cada patada, porra.
Diego calou a boca. Beleza, não falo mais nada.
Diego se concentrou em devorar a comida enquanto Diogo voltava ao Campo Minado. No entanto, a sequência de vitórias acabou: nas três partidas seguintes, não conseguiu dar três cliques sem detonar uma mina, explodindo a tela inteira em fracasso.
Perdendo o interesse de vez, desligou o monitor. Ainda assim, continuou sentado na cadeira sem se mexer, mantendo a postura desleixada. O longo dedo indicador tamborilou algumas vezes no tampo da escrivaninha antes de ele soltar de repente:
— Você disse que a moto dela também foi roubada?
Diego engoliu um pedaço de carne cozida:
— É. Estava bem debaixo da câmera de vigilância e levaram mesmo assim.
Diogo não disse mais nada. Dobrou o braço esquerdo, apoiando o cotovelo no braço da cadeira, e repousou a bochecha sobre os dedos. Inclinou a cabeça, pensativo por alguns instantes, e concluiu que a tentação de provocar era irresistível demais para deixar passar. Pegou o celular sobre a mesa com agilidade e alterou seu nome de exibição no WeChat para: Até a moto da Fênix foi roubada?
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