เรื่องย่อ
Sienna Figueiredo, outrora a sombra leal e amante do temível chefe da máfia Dante Barbosa, decide romper as correntes do passado após ser trocada e humilhada. Em Lourenço de Vasconcelos, ela reconstrói a própria dignidade, abre um restaurante e aprende a ser livre. Entre traições, novos afetos e a redescoberta do amor-próprio, esta é uma história sobre a coragem de recomeçar e a força de uma mulher que escolhe a si mesma.
บท1
Abandonei o Chefe da Máfia e Ele Enlouqueceu
Sienna Figueiredo passou anos como a arma mais leal de Dante Barbosa, sua amante e subchefe. Ela limpava o rastro de suas guerras, guardava seus segredos e esperava pelo dia em que o homem que amava finalmente a escolheria. Em vez disso, Dante a humilhou, protegeu outra mulher e destruiu os últimos vestígios da vida que haviam construído juntos.
Por isso, Sienna vai embora.
Mas dar as costas à Família Barbosa não é simples. Um traidor está à sua caça, uma família rival fareja fraqueza, e o arrependimento de Dante chega tarde demais para merecer confiança. Em uma pacata cidade costeira, Sienna começa a se reconstruir com novos aliados, uma tartaruga teimosa e Elias Oliveira, um médico equilibrado que nunca a toca sem pedir permissão.
Dante a quer de volta. Marco quer arrastá-la para casa. Elias só a quer livre.
E, pela primeira vez, Sienna escolhe a si mesma.
Capítulo 1: O Refém Escolhido
Dante Barbosa fez a sua escolha enquanto outra mulher usava a sua coroa.
Foi dessa parte que me lembrei primeiro. Não das armas. Não do reflexo frio da mesa de mármore na sala do conselho. Nem da forma como todos os homens no complexo dos Barbosa prenderam a respiração quando a mensagem de Adrian Tavares da Silva chegou pela velha linha segura.
Lembrei-me da tiara.
Ela repousava sobre os cabelos escuros de Isabella Botelho como uma afronta, cheia de diamantes brancos e pontas delicadas de prata. Isabella não parava de tocá-la com a ponta de dois dedos, tímida e cuidadosa, como se não tivesse passado meia hora antes do jantar pedindo a três criadas que ajustassem a peça. Seus olhos estavam úmidos, mas não de pavor. Isabella sabia chorar sob encomenda. Eu já a vira fazer isso por causa de um copo quebrado, de um hematoma no pulso que ela mesma provocara ou de um pesadelo contado com uma voz tão suave que fazia homens feitos se sentirem cruéis.
Dante estava de pé atrás da cadeira dela.
A mão dele descansava sobre a madeira entalhada, bem perto do ombro de Isabella — próximo o bastante para reivindicar posse, mas longe o suficiente para evitar acusações formais. Vestia preto, como sempre, com a camisa entreaberta no colarinho e o anel de sinete reluzindo à luz a cada movimento dos dedos. Dez anos atrás, aquele anel ficava frouxo em sua mão. Nós costumávamos rir disso num quarto alugado sobre um açougue desativado, na época em que o sobrenome Barbosa só significava sangue nos sapatos e dívidas nos bolsos. Ele costumava colocar a joia e me dizer: Um dia, todos vão baixar a cabeça quando eu entrar.
Eu acreditei nele.
Pior: ajudei a transformar isso em realidade.
A sala do conselho estava lotada. Capos perfilados pelas paredes. Dois primos mais velhos junto ao bar. Marco Lourenço da Silva perto da porta, de mãos cruzadas à frente do corpo, fingindo não olhar na minha direção. Os meus homens da Doca Sul estavam posicionados atrás dele, não atrás de mim. Aquilo era novidade. Notei o detalhe porque notar pequenas mudanças fora o que me manteve viva até ali.
Na tela da parede, Adrian Tavares da Silva sorria de dentro de um cômodo sombrio que eu conhecia bem demais. Concreto nu. Canos enferrujados. Um único ralo no chão.
Meu estômago revirou antes mesmo de ele falar.
— Dante — disse Adrian. — A sua garota está linda esta noite. A menorzinha, quero dizer. A da coroa. Traga a mocinha até o Cais Norte até a meia-noite, e a carga desaparecida voltará intacta para as suas mãos. Se recusar, começo a mandar seus homens de volta aos pedaços.
Ninguém se mexeu.
Isabella soltou um gemido contido e estendeu a mão para trás, buscando o pulso de Dante. Ele deixou que ela o segurasse.
Fixei meus olhos no rosto dele. Eu sempre olhava para o rosto de Dante primeiro. Ele era capaz de mentir com a boca, com as mãos e até com o silêncio, mas havia um músculo na mandíbula que se retesava sempre que uma escolha lhe custava caro.
Esta noite, nada se moveu.
Adrian inclinou-se para mais perto da câmera:
— Sem soldados. Sem truques. Uma garota por uma rota. Você conhece as velhas regras. Sangue por passagem.
A tela apagou.
Por três segundos, o único som no recinto foi o zumbido das lâmpadas.
Em seguida, a sala explodiu em vozes.
— É uma armadilha.
— Tavares da Silva não vai parar em um refém só.
— Vamos atacar o Cais Norte agora mesmo.
— Não podemos agir às cegas.
— A garota não pode ir. O chefe acabou de apresentá-la à família.
A garota.
Não Isabella. Não a senhorita Botelho. A garota. Uma criatura frágil, adornada com uma coroa de diamantes e a mão de Dante sobre o ombro.
Baixei os olhos para as minhas mãos. A pele sobre os nós dos dedos estava rachada pelo trabalho da noite anterior na Doca Sul. Uma das unhas havia quebrado rente à carne e ainda sangrava. Havia resquícios de pólvora perto do meu polegar, onde a culatra de uma arma dera um tranco errado. Não tive tempo de me limpar antes de ser convocada para o jantar.
Isabella cheirava a rosas quando passou por mim no corredor.
Dante ergueu uma das mãos.
A sala emudeceu de imediato.
Esse era o poder dele. Não vinha do volume da voz, nem da fúria. Vinha apenas da certeza implacável de que, quando ele cortasse o ar, todos nós pararíamos de respirar junto.
— Adrian pediu uma mulher da minha casa — declarou ele.
Um calafrio desceu pela minha nuca.
Eu já sabia antes mesmo de ele se virar.
O amor, se é que aquilo fora amor um dia, condicionava o corpo de maneiras estúpidas. Senti o peso da atenção de Dante antes de seus olhos me tocarem. Adivinhei a decisão antes que a boca dele a pronunciasse. Eu sabia até a desculpa exata que usaria, pois fora eu quem formulara metade de suas justificativas ao longo dos anos, chamando-as de estratégia.
— A Sienna vai.
Ninguém deu uma palavra.
Os dedos de Isabella escorregaram do pulso dele. A boca dela se abriu em fingida surpresa, mas seus olhos procuraram os meus antes de tudo. E lá estava, rápido e brilhante sob todo aquele falso pavor.
Alívio.
Ouvi o raspar de uma cadeira. Talvez a minha, talvez a de outro. A sala pareceu tombar por um instante antes de se aprumar. Meu corpo entendia o perigo muito melhor do que a humilhação: retesou-se, firme e ereto.
— Não — recusei.
Algumas cabeças se viraram. Não por concordarem comigo, mas para ver até onde eu iria cair.
O olhar de Dante se estreitou:
— Não?
Uma única palavra. Baixa. Carregada de aviso.
Eu já o tinha visto usar aquele tom com homens que não sobreviveram àquela mesma noite.
— O Tavares da Silva pediu a Isabella. — Minha própria voz soou impassível, o que me surpreendeu. — Ele deu o nome dela. Descreveu-a. Ele quer a mulher que você acabou de exibir para a cidade inteira como a sua favorita. Mandar a mim não vai satisfazê-lo.
— Você conhece as regras do Tavares da Silva melhor do que ninguém — retrucou Dante.
O golpe acertou exatamente onde ele pretendia.
Sim. Eu conhecia as regras dele. Sabia como os capangas dele amarravam os pulsos com lacres plásticos com o nó voltado para dentro, para que o próprio pânico da vítima fizesse metade do trabalho. Sabia o gosto da água engolida aos engasgos. Conhecia o som que alguém faz quando tenta não implorar diante dos inimigos.
Três anos atrás, entrei num galpão do Tavares da Silva com cinco homens e saí com apenas dois. Foi a partir desse dia que Dante começou a me chamar de subchefe em público.
E de sua arma na intimidade.
— Sei que ele não tolera substituições — respondi.
— Ele quer poder de barganha — retrucou Dante. — E você é a minha barganha.
Um riso curto escapou da minha garganta antes que eu pudesse conter.
Não foi alto. Não teve graça alguma. Ainda assim, cortou o silêncio da sala.
— Sou mesmo?
A expressão de Dante permaneceu imóvel, mas os homens encostados à parede se entreolharam, inquietos.
Dei um passo para trás, afastando-me da mesa. Os pés da minha cadeira arranharam o chão.
— Semana passada você deixou o Marco instruir a Doca Sul sem mim. Ontem deslocou meus homens para o portão leste. Hoje sentou a Isabella à sua direita usando uma coroa que você mandou buscar sob escolta armada da família. Se o Tavares da Silva tem olhos, e nós dois sabemos muito bem que tem, ele sabe exatamente quanto valor eu ainda tenho.
Isabella baixou os olhos, pestanejando com afetação:
— Sienna, por favor, não faça isso ser sobre mim. Eu não pedi nada disso a ele.
Virei a cabeça devagar em direção a ela.
Ela pareceu encolher sob o meu olhar, mas era apenas encenação. Os lábios tremiam de leve e as mãos voltaram a subir em direção à tiara.
— Tire isso — ordenei.
O clima na sala mudou de imediato.
Isabella piscou, atônita:
— O quê?
— Se está com medo, tire. Se não quer ser a mensagem que o Dante enviou para todas as famílias de Porto Abrigo, tire a coroa da cabeça.
A mão dela congelou no ar.
Dante interveio antes que ela precisasse responder:
— Chega.
Voltei a encará-lo:
— Você coloca diamantes na cabeça dela dentro de uma casa erguida sobre homens mortos e depois finge surpresa quando os lobos farejam sangue.
— Cuidado — avisou ele, a voz ríspida.
— Eu tive cuidado durante dez anos.
As palavras saíram secas, diretas. E isso as tornava ainda mais cortantes.
Algo passou pelo rosto dele naquele instante, rápido demais para a maioria perceber. Não era culpa. Dante não tolerava a culpa, pois sentir culpa exigia admitir que a dor pertencia a outro. Era irritação, talvez, ou o incômodo de ouvir uma porta trancada ceder sobre os gonzos.
Ele contornou a mesa.
Cada passo que dava trazia à tona lembranças que eu preferia esquecer. Dante aos dezenove com sangue nos dentes, rindo aliviado por termos sobrevivido. Dante aos vinte e três colando a testa na minha depois que levei um tiro destinado a ele. Dante aos vinte e seis me prometendo que a Doca Sul seria nossa — não apenas dele, mas nossa —, porque eu havia conquistado cada palmo daquele lugar com meu próprio sangue.
Dante parou diante de mim, como se eu não passasse de um estorvo largado no chão da sua sala.
— Você é a única pessoa nesta sala capaz de entrar no território dos Tavares da Silva e sair de lá com vida — disse ele.
Lá vinha o golpe. A lâmina macia. Ele sempre recorria a ela logo após desferir a mais dura.
Encarei seus olhos.
— Você quer dizer que sou a única pessoa que está disposto a arriscar.
A mandíbula dele retesou.
Pronto. Finalmente.
— O que quero dizer é que você é treinada — rebateu. — Tem nome. Não é uma garota desarmada que desmoronaria na primeira hora.
Atrás dele, Isabella soltou um suspiro ofendido.
Dante não se virou, mas a tensão pesou em seus ombros, como se a dor dela o tivesse atingido.
A minha já não causava isso fazia tempo.
— Voltei da Doca Sul com três costelas trincadas esta manhã — afirmei. — Sabia disso?
O silêncio dele foi a primeira resposta.
Marco desviou o olhar.
Um gesto sutil. Típico de covarde. Ainda assim, não me escapou.
Os olhos de Dante baixaram até a minha lateral antes de voltarem ao meu rosto.
— Você não comunicou ferimentos.
— Você não perguntou.
Ninguém ousou respirar.
Por um segundo, aquele lugar deixou de ser a sala do Conselho. Era o velho apartamento sobre o açougue. A chuva gotejando pelo teto. Um colchão no chão. Dante limpando uma faca na pia enquanto eu passava gaze ao redor de suas costelas e o chamava de idiota. Ele segurara meu pulso e beijara o sangue no meu polegar. Na época, achei que aquilo significava algo eterno.
Eu era jovem demais a ponto de confundir fome com devoção.
Dante baixou o tom de voz.
— Sienna.
Meu nome na boca dele ainda sabia exatamente onde me ferir. Eu odiava isso acima de tudo.
— Se mandarmos a Isabella — disse ele —, Tavares da Silva vai usá-la como troféu. Vai machucá-la porque ela não tem como se defender. E vai usar o pavor dela para me desestabilizar.
— E se você me mandar?
— Você sobrevive.
Simples. Cruel. Quase com admiração.
Houve um tempo em que eu me orgulharia disso. Dante Barbosa acreditava que eu resistiria a qualquer coisa. Os homens chamavam isso de respeito. Eu chamava de amor, quando estava cansada demais para enxergar a verdade.
Agora eu compreendia. Algumas pessoas só acreditam na sua força porque isso lhes dá permissão para continuar quebrando você.
Olhei por cima do ombro dele, mirando Isabella.
— Você quer que eu vá no seu lugar?
O sangue sumiu do rosto dela.
— Sienna — advertiu Dante.
— Não — rebati. — Deixe que ela responda. Ela sabe usar a voz quando quer presentes. Pode usá-la agora.
Os olhos de Isabella se encheram de lágrimas. Ela fitou Dante, não a mim.
— Não quero que ninguém se machuque.
A expressão de alguns dos homens mais velhos se abrandou. É claro. Uma piedade tão bonita era fácil de admirar quando outra pessoa pagava a conta.
— Isso não foi uma resposta — disse eu.
Ela recuou com um sobressalto.
Dante se interpôs entre nós.
— Basta. A decisão está tomada.
Aquelas palavras se fecharam como um laço na minha garganta.
A decisão está tomada.
Eu já as ouvira quando incendiamos nosso primeiro esconderijo. Quando escolhemos qual traidor entregar. Quando lhe implorei que poupasse um garoto do cais, jovem demais para entender o que estava transportando. Dante dizia essas palavras sempre que exigia obediência sem o fardo de ter que se explicar.
Por anos a fio, eu lhe dei exatamente isso.
Talvez por isso todos estivessem esperando que eu baixasse a cabeça.
Não baixei.
— Com base em que autoridade? — perguntei.
O olhar de Dante escureceu.
Alguém perto do móvel de bebidas murmurou meu nome como uma prece e um aviso.
Toquei o Anel de Sinete da Doca Sul preso ao meu cinto. Latão pesado, com as bordas marcadas. Eu o arrancara de um homem morto em um armazém tomado pela fumaça, e conquistara o respeito da equipe ao ser a última a sair. O próprio Dante o colocara na minha mão.
Subchefe, dissera ele. Minha.
Na época, aquela palavra me aquecera.
Agora, eu só ouvia o peso da corrente.
— Na minha — declarou Dante. — Como chefe.
— Então diga como chefe. Não como o homem que dividia a minha cama.
O rosto dele endureceu.
Ótimo. Que endurecesse. Que todos vissem a podridão que vínhamos fingindo não existir entre nós.
Dante virou-se de leve para os homens no salão.
— Sienna Figueiredo vai se apresentar no Cais Norte antes da meia-noite como representante da Família Barbosa. Ela não portará nenhuma arma visível. Negociará a liberação da nossa rota e dos nossos homens. Se Tavares da Silva a levar para dentro, ela resistirá até o resgate.
Resgate.
Uma palavra limpa. Termo de soldado. Fazia o terror parecer algo passageiro.
Quase soltei outra risada.
— E se o resgate não vier? — indaguei.
Os olhos dele cravaram-se nos meus.
— Vai vir.
— Jure.
Ele sustentou o meu olhar.
O antigo Dante teria atravessado a sala. Teria feito um corte na palma da mão e a pressionado contra a minha, como dois garotos de rua brincando de juramentos sagrados. O antigo Dante teria dito: Se encostarem em você, eu queimo a zona norte inteira até virar cinza.
Este Dante não disse nada.
Aquele silêncio fez o que as ameaças de Tavares da Silva não conseguiram. Rompeu algo de forma definitiva e límpida dentro de mim.
Assenti com a cabeça.
Atrás dele, Isabella soltou o ar. Cedo demais.
Virei-me para ela e estendi a mão aberta.
— A coroa.
Ela recuou.
— Dante?
Dante pareceu exausto naquele instante, como se eu fosse a responsável por complicar a noite.
— Deixe isso para lá, Sienna.
— Não. Se vou no lugar dela, vou exatamente como o que Tavares da Silva exigiu. Ele pediu a garota coroada. Me entregue a coroa.
Um murmúrio baixo correu entre os homens.
Era estratégia. Todos sabiam. Mas também era humilhação, e disso ninguém tinha dúvida.
A boca de Dante se contraiu.
— Você não precisa disso.
— Você não tem o direito de me despir de tudo e chamar isso de confiança.
Por um instante, achei que ele fosse recusar apenas para provar que mandava.
Então ele se virou.
— Isabella.
A feição dela se desmanchou.
— Mas você me deu.
— Agora.
Uma única palavra dele. Foi o suficiente.
Com as mãos trêmulas, ela ergueu os braços e retirou a tiara do cabelo. Uma mecha se prendeu na cravação. Ela fez uma careta de dor, e Dante quase deu um passo para ajudá-la.
Quase.
Peguei a peça antes que ele pudesse se mexer.
Os diamantes eram frios. Mais pesados do que aparentavam. Coloquei a joia sobre a minha cabeça sem pedir espelho. Alguns homens desviaram a vista. Marco, não. O rosto dele tinha perdido a cor.
Talvez se lembrasse de mim mais jovem, parada num cais sob a chuva, ensinando-o a manter o pulso firme quando uma arma travava. Talvez se lembrasse de me chamar de chefe antes mesmo de Dante oficializar o posto.
Lembrar não o tornava leal.
Soltei o Anel de Sinete da Doca Sul do cinto e o depositei sobre a mesa.
Os olhos de Dante caíram sobre ele.
— O que você está fazendo?
— Viajando com pouca bagagem.
— Pegue isso de volta.
— Não.
A mão dele se fechou em torno do meu pulso antes que eu terminasse de pronunciar a recusa.
Uma pontada de dor subiu pelo meu braço. Não demonstrei nada. Dante conhecia os meus limites bem demais. Afrouxou o aperto apenas um pouco, não por piedade, mas por memória.
— Não transforme isso em um espetáculo — avisou ele.
Inclinei-me o bastante para que apenas ele me ouvisse.
— Você já fez isso quando colocou uma coroa na sua amante e mandou a sua subchefe para a morte.
Os olhos dele faiscaram.
Estava ali. A palavra que ele merecia e detestava.
Amante.
O restante da sala não ouviu, mas Isabella percebeu o impacto. As lágrimas dela cessaram por um segundo exato.
Dante me soltou.
Peguei meu casaco no encosto da cadeira. Minhas costelas protestaram com uma pontada aguda quando ergui o braço. Mantive a expressão impassível. Escondido no forro do casaco estava o canivete enferrujado que eu carregava desde a época em que éramos pobres a ponto de dividir uma única arma carregada. Dante nunca me pedira para abrir mão daquilo. Talvez tivesse até esquecido de sua existência.
Eu não tinha esquecido.
Junto à porta, Bala se levantou de onde estivera deitado, perto do corredor. O velho cão dormira durante metade da reunião, o focinho cinzento apoiado nas patas, mas agora vinha mancando na minha direção. As unhas estalavam contra o mármore. Ele encostou a cabeça na minha coxa.
Um nó se formou na minha garganta com tanta força que doeu.
— Fica — sussurrei.
Ele soltou um ganido baixo.
A voz de Dante soou às minhas costas:
— Sienna.
Parei, mas não me virei.
Por um segundo tolo, alguma parte destroçada dentro de mim ainda esperou. Esperou por um pedido de desculpas. Pela revogação da ordem. Por qualquer prova de que o homem que outrora segurara minhas mãos trêmulas após a minha primeira morte ainda estivesse vivo em algum lugar sob o chefe, o anel e a camisa preta e fria.
— Volte com vida — disse ele.
Não foi um Eu vou buscar você.
Não foi um Me desculpe.
Volte com vida, como se a sobrevivência fosse apenas mais uma tarefa que ele pudesse me encarregar.
Olhei para baixo, afaguei Bala atrás da orelha uma única vez e abri a porta da sala do Conselho.
O corredor do lado de fora estava repleto de guardas que, de repente, acharam as paredes muito interessantes. As notícias corriam depressa naquela casa. A vergonha corria ainda mais.
Passei por eles sentindo os diamantes de Isabella cravarem no meu couro cabeludo, deixando para trás o meu próprio sinete sobre a mesa de Dante.
No fim do corredor, meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Uma mensagem:
Use a coroa, Sienna. Quero que ele assista ao que jogou fora.
Abaixo do texto, havia uma foto da Sala de Água dos Tavares da Silva.
No canto da imagem, acorrentado a um cano, estava um dos meus garotos da Doca Sul.
Ainda vivo.
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