O Zoológico Amaldiçoado que Virou Sensação Mundial
Sinopse
Ao retornar à sua terra natal para herdar o falido Zoológico Colina do Leste deixado por seu falecido avô, Eduardo Cavalcante desperta inesperadamente o lendário Sistema do Cuidador de Pets, uma interface mística capaz de mensurar atributos, habilidades e a fidelidade absoluta dos animais. Cercado por dívidas colossais, cobranças violentas de Mano Rezende e a traição de antigos funcionários, Eduardo une forças com o sagaz ratinho Cinzinha, o leal cão Almirante e a gatinha Aurelinha para solucionar crimes de repercussão ao lado do policial Rodrigo Passarinho e da influente Sabrina Silveira, iniciando uma virada espetacular por meio de transmissões ao vivo e resgates comoventes.
Com o apoio do renomado diretor Fausto Tolentino e de novos companheiros destemidos — incluindo o furioso texugo-do-mel Destemido, os pandas-gigantes Robusto e Lola, e a tigresa-do-sul-da-china Bela-Fortuna —, o zoológico torna-se um fenômeno internacional. Ao desbravar as matas do Monte Cortina e as profundezas litorâneas da Vila Enseada Farta com o golfinho Polvinho e o tubarão-branco Grande-Branco, Eduardo descobre dimensões ocultas, domínio sobre as águas e a lendária herança do Palácio do Dragão, preparando-se para transcender a mortalidade e defender o planeta contra a colossal invasão da Aliança Imperial.
Capítulo1
Ao acordar, Eduardo Cavalcante sentiu que o mundo já não era o mesmo.
A claridade matinal invadia o quarto pela janela. Do lado de fora, a folhagem exibia um verde vívido, e os pássaros chilreavam sem parar.
Ele fixou o olhar numa ave pousada num galho próximo, e uma breve mensagem piscou em sua mente:
Espécie: Pardal
Lealdade: 0 (Parabéns, para ele você não passa de um estranho)
Levou alguns instantes para assimilar o que estava acontecendo: havia despertado o Sistema do Cuidador de Pets.
Após a confusão inicial, seus olhos recuperaram o brilho.
O que tinha acontecido no dia anterior?
Isso mesmo, herdei um zoológico, lembrou-se Eduardo do acontecimento que virara sua vida de cabeça para baixo.
Ele tinha acabado de voltar da distante Metrópole Central. Ao saber que herdara uma propriedade com vários hectares, ficara radiante. No entanto, outra cláusula do testamento fora um verdadeiro balde de água fria: o herdeiro não tinha autorização para vender o zoológico; se o fizesse, advogados e entidades filantrópicas levariam a propriedade a leilão para quitar as dívidas pendentes, doando qualquer quantia restante ao Estado.
Junto com o zoológico, viera também uma montanha de dívidas.
A princípio, Eduardo nem pretendia aceitar a herança. Contudo, o avô quase não tinha outros parentes vivos além dele. Além disso, após anos de perrengue e privações na metrópole, ele estava na corda bamba, sem um tostão furado. Como alguém que se afoga e agarra a última tábua de salvação, abraçou aquela chance com todas as forças. Terminados os trâmites, gastou os últimos trocados em passagens de ônibus interestadual e coletivo urbano para chegar até ali.
Os pais haviam morrido num acidente quando ele ainda era jovem. Tendo entrado cedo no mercado de trabalho e amargado a dureza da vida na base da pirâmide, Eduardo sabia muito bem o que aquela oportunidade representava.
Mas sabia também que o risco era enorme.
E o primeiro sinal de problema não tardou a aparecer.
Batidas estrondosas na porta o fizeram estremecer. A violência dos golpes deixava evidente que quem estava do outro lado não vinha em missão de paz.
Junto ao estrondo, veio um grito impaciente:
— Jovem Cavalcante, pague o que deve!
Arrastando os chinelos, Eduardo foi até a entrada com o cenho franzido, respondendo no mesmo tom:
— Já vai, para de bater... — Se continuassem, arrebentariam a madeira.
Mal puxou o ferrolho, a porta foi empurrada com agressividade, quase acertando seu nariz.
Diante dele surgiu um homem de meia-idade, barrigudo, escoltado por alguns rapazes de ar debochado e postura intimidadora. No corredor do lado de fora, os funcionários do zoológico observavam a cena com olhares ambíguos. Pela atitude deles, parecia até que temiam ver Eduardo fugir como um daqueles patrões de fábrica falida.
Fazer o quê? O zoológico afinal devia dois meses de salário àquela gente.
Eduardo manteve a boca fechada, esperando o homem falar primeiro enquanto avaliava a postura do sujeito para tentar descobrir de onde ele vinha.
— Pague o que deve!
— Sobre esse dinheiro, daria para esperar um pouco...?
— Esperar uma ova! — esbravejou o homem, soltando um palavrão. — É farinha do mesmo saco do velho Cavalcante. Até a conversa fiada é idêntica.
Os rapazes atrás dele caíram na gargalhada, num tom abertamente zombeteiro.
O semblante de Eduardo endureceu de leve. Ele acabara de assumir o lugar e não tinha como liquidar uma dívida daquelas de imediato.
— E você seria o... — Fez uma pausa.
Um dos capangas apressou-se a intervir:
— É o Mano Rezende.
— Mano Rezende, o que você pretende fazer?
— Ou você paga, ou... — Mano Rezende soltou um riso seco, deixando a ameaça no ar.
— Não tem como me dar um mês de prazo? — Eduardo sentia repulsa pela grosseria daquele homem e a vontade era de lhe acertar um soco, mas manteve a frieza. — Do jeito que as coisas estão, mesmo que você me mate aqui agora, não vou conseguir tirar dinheiro do nada.
— Se vender o zoológico, você consegue o dinheiro na hora, não consegue? — rebateu Mano Rezende com fingida indiferença.
Naquele momento, tudo se encaixou na cabeça de Eduardo: o sujeito estava de olho no terreno.
Fazia sentido. Embora a área ficasse na periferia urbana, toda aquela região passava por obras de reurbanização e demolição. De uma hora para outra, aquele zoológico decadente e desvalorizado se transformara num pedaço de carne cobiçado por urubus.
— Me dê um mês de prazo — insistiu Eduardo, assumindo uma postura resoluta. Não tinha dinheiro para pagar agora de qualquer maneira. Embora honrar dívidas fosse o certo, aquele sujeito estava se aproveitando descaradamente de um momento de fragilidade.
Mano Rezende calculou mentalmente a situação. Sabia que seria impossível para aquele moleque levantar um milhão em apenas trinta dias, a menos que alguém lhe emprestasse uma fortuna. Mas ele conhecia bem a situação do zoológico que pretendia engolir. Nos últimos anos, com a péssima administração e os empréstimos sucessivos que o velho contraíra por aí, a reputação do estabelecimento fora para o ralo. Ninguém em sã consciência colocaria dinheiro ali.
— Daqui a um mês, se não pagar até o último centavo, você vai ter que vender esse zoológico!
Eduardo engoliu a raiva a seco.
— E aí? — provocou Mano Rezende com um sorriso cínico. — Ou prefere pagar agora?
— Fechado — disse Eduardo, trincando os dentes.
Mano Rezende bufou satisfeito. Num gesto de falsa generosidade, fingiu simpatia, soltou algumas palavras protocolares de consolo e deu meia-volta, saindo com as mãos para trás.
Assim que Mano Rezende virou o corredor, cerca de dez funcionários entraram de supetão na sala.
A têmpora de Eduardo latejou. No dia anterior, aquele mesmo grupo já o havia cercado no escritório para cobrar pagamentos.
— Jovem Cavalcante — começou o que parecia liderar o grupo —, viemos tratar de dois assuntos.
Eduardo apenas assentiu, correndo os olhos por todos eles. Quando chegara ontem com a mala de viagem, vira aqueles empregados largados à sombra de uma árvore, quebrando sementes e sem dar a menor importância à sua presença. Contudo, pelo que a Tia Silva havia contado, embora o falecido avô vivesse atolado em dívidas, nunca deixara de pagar ninguém. O velho mal havia completado dois meses de falecido e eles já agiam daquela forma desumana. Era de embrulhar o estômago.
— Primeiro assunto: ontem você prometeu os dois meses de salário atrasados. Queremos uma nota promissória assinada.
— Tudo bem — concordou Eduardo de imediato.
— Segundo assunto: nós estamos caindo fora. Ninguém mais trabalha aqui.
Eduardo ficou surpreso por um instante.
O porta-voz continuou:
— Só viemos avisar. Você assina a nota agora, a gente vai ao alojamento pegar as nossas coisas e volta já para buscar o papel.
Depois de soltarem a notícia sem o menor pudor, deram as costas e saíram.
Na verdade, Eduardo já pensava em demitir aquele bando encostado. Embora o anúncio repentino o pegasse desprevenido, ele não sentia arrependimento algum. Para alguém na situação dele, lamentar era a coisa mais inútil do mundo.
O escritório ficou deserto. Tudo o que tinha algum valor ali dentro havia sido surrupiado logo após a morte do avô; Eduardo nem fazia ideia de quantas coisas eles tinham levado embora na calada da noite.
Sobre a mesa repousava o livro-caixa entregue pelo setor financeiro. Mesmo preparado para o pior, os números das receitas e despesas o deixaram atordoado. Nos últimos anos, a metrópole vizinha havia inaugurado um zoológico muito maior e moderno, que atraía todo o público. Parado no tempo e apegado a métodos ultrapassados, este velho parque fora engolido pela modernidade e esquecido pela população. A contabilidade operava no vermelho há anos, acumulando prejuízos sem parar.
A dívida crescera como uma bola de neve. Ao fechar o livro-caixa, Eduardo sentiu um suor frio escorrer pelas costas: havia herdado uma verdadeira batata-quente!
Um milhão. Para um jovem sem patrimônio, juntar essa quantia exigiria uma vida inteira de trabalho assalariado.
Droga! Eu duvido que não vou conseguir dar um jeito de arrumar esse dinheiro em um mês. Mesmo que precise vender o almoço para comprar o jantar, não vou deixar esses abutres levarem a melhor! Eduardo cerrou os dentes. Se aquele bando queria ir embora, que fossem. Mas antes de botarem os pés na rua, teriam que devolver tudo o que haviam embolsado!
Ele enfiou a mão no fundo da mochila surrada e desbotada. Remexeu por um bom tempo até conseguir pescar apenas algumas moedas perdidas.
A determinação ferrenha que sempre o acompanhara desde a infância veio à tona de uma vez. Chamou a contadora, a Tia Silva, e pediu que fizesse um levantamento dos itens que pertenciam ao escritório.
A mulher hesitou antes de sussurrar com receio:
— O velho Cavalcante tinha um jogo completo de mobília de jacarandá que valia dezenas de milhares...
Eduardo arregalou os olhos:
— Onde foi parar?
A Tia Silva apenas deu um sorriso amargo, sem coragem de abrir a boca.
Eduardo compreendeu tudo num instante. Miseráveis, passaram dos limites!
Se eu não fizer esse bando de safados pedir desculpas de joelhos, não me chamo Eduardo Cavalcante!
Últimos capítulos
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