Sinopse
No início de setembro, o calor do verão ainda não havia dado trégua em Linfonte. Mesmo ao cair da noite, o ar continuava abafado e sufocante.
Laura Lourenço de Vasconcelos pedalava de volta para casa depois da aula de estudo noturno. Ao se aproximar do portão leste do condomínio, avistou de longe uma silhueta alta e esguia encostada no poste de iluminação pública. Parecia entediado, à espera de alguém.
Sem a menor intenção de lhe dar atenção, Laura seguiu direto em direção à entrada. O vulto, porém, avançou de repente e plantou-se bem na frente da bicicleta.
Ela freou no susto e, assim que equilibrou os pés no chão, franziu a testa, encarando o rapaz com irritação. — Ficou maluco? O que você quer?
Samuel Sousa-Martins abriu um sorriso travesso, com os olhos alongados e expressivos brilhando num tom bajulador. — Chegando tão tarde assim? Deve estar um forno pedalar até aqui. Vem, hoje é por minha conta: vou te pagar um picolé.
Sem esperar que ela concordasse, ele segurou o guidão da bic
Capítulo1
No início de setembro, o calor do verão ainda não havia dado trégua em Linfonte. Mesmo ao cair da noite, o ar continuava abafado e sufocante.
Laura Lourenço de Vasconcelos pedalava de volta para casa depois da aula de estudo noturno. Ao se aproximar do portão leste do condomínio, avistou de longe uma silhueta alta e esguia encostada no poste de iluminação pública. Parecia entediado, à espera de alguém.
Sem a menor intenção de lhe dar atenção, Laura seguiu direto em direção à entrada. O vulto, porém, avançou de repente e plantou-se bem na frente da bicicleta.
Ela freou no susto e, assim que equilibrou os pés no chão, franziu a testa, encarando o rapaz com irritação. — Ficou maluco? O que você quer?
Samuel Sousa-Martins abriu um sorriso travesso, com os olhos alongados e expressivos brilhando num tom bajulador. — Chegando tão tarde assim? Deve estar um forno pedalar até aqui. Vem, hoje é por minha conta: vou te pagar um picolé.
Sem esperar que ela concordasse, ele segurou o guidão da bicicleta e começou a puxá-la para longe do portão do condomínio.
— Ei! O que está fazendo? Eu não vou a lugar nenhum! — protestou Laura, mas a resistência foi inútil.
Samuel não a arrastou para muito longe; apenas contornou a cerca da portaria leste até o mercadinho em frente ao portão sul. O condomínio onde moravam contava com duas entradas: a leste, mais isolada e deserta, e a sul, a principal, cercada de lojas e barracas de comida de rua que deixavam o trecho bastante movimentado à noite.
O prédio de Laura ficava a uma distância quase idêntica de ambos os acessos, de modo que ela costumava escolher qualquer um ao voltar. Não imaginava que teria o azar de ser interceptada por Samuel.
Os dois se acomodaram no banco de madeira diante do mercadinho, e ele lhe estendeu um picolé de gelo tradicional. Laura chegara encharcada de suor da pedalada; diante de um agrado gelado e gratuito, não fez cerimônia. Pegou o doce, rasgou a embalagem e deu uma mordida generosa.
A onda repentina de frio fez os dentes de Laura doerem, arrancando-lhe uma careta. Com a boca cheia de gelo, perguntou com a voz meio embolada: — O que foi desta vez?
Tanta gentileza sem motivo só podia esconder segundas intenções.
— A gente tem uma boa amizade, não tem? — perguntou Samuel, com um sorriso servil.
— Que amizade? — rebateu ela, sem entender onde ele queria chegar com aquela conversa fiada.
— Do fundamental até o primeiro ano do ensino médio, a gente estudou na mesma sala. Até sentamos lado a lado como parceiros de carteira! Se isso não é amizade, o que é?
— Ah, claro. Está falando daquela amizade de um único mês dividindo a mesma mesa? — comentou Laura, num tom neutro.
— E o que tem ser um mês só? — reclamou ele, parecendo ofendido com a indiferença dela diante daquele passado escolar. — Um mês rende lembrança suficiente!
— Rende mesmo, tem toda razão — anuiu Laura, mordendo mais um pedaço do picolé antes de começar a listar. — Naquele mês, você quebrou a minha caneta favorita; na aula de redação, insistiu em me mostrar seu mangá novo e fomos os dois parar de castigo em pé; no teste de inglês, tentou colar da minha folha e o professor pegou no flagra; e, para completar, arrumou briga com o colega da frente e derrubou minha garrafa de água quente, me queimando inteira... É, lembrança é o que não falta.
Samuel ficou sem graça, tentando a todo custo consertar o estrago: — Mas teve aquela vez que você não conseguia resolver os exercícios de matemática e eu te ajudei!
— Muito obrigada pela ajuda! Você inventou de me passar resposta durante a prova e quase ganhamos nota zero por cola! — Ao se lembrar do episódio, Laura cerrou os dentes de pura raiva. Aquele sujeito só podia ter algum parafuso solto na cabeça naquela época!
— Não tem nenhuma recordação boa, sério? — perguntou ele, visivelmente sem jeito.
— Tem uma, sim: quando a professora trocou você de lugar e você recolheu suas coisas rapidinho, sem enrolar. Foi um excelente momento! — alfinetou ela, impiedosa.
Samuel desanimou, percebendo que apelar para os velhos tempos de escola não daria em nada. — Mas as nossas famílias moram no mesmo condomínio, se conhecem há anos, e o seu pai é grande amigo do meu. Isso conta como uma boa relação, não conta?
Aquilo era verdade, mas pertencia à esfera dos pais, não deles.
O pai de Laura e o pai de Samuel eram amigos de longa data. Quando estavam no ensino fundamental, a família de Samuel se mudara para aquele mesmo condomínio e, por pura coincidência, os dois acabaram caindo na mesma turma. Com o tempo, as visitas entre as casas tornaram-se frequentes e o convívio entre os adultos ficou cada vez mais próximo.
O pai de Samuel vivia recomendando ao filho que cuidasse de Laura na escola, para que não a incomodasse nem deixasse ninguém importuná-la. É claro que o rapaz desempenhava essa tarefa de forma medíocre.
Para Laura, o vínculo entre eles resumia-se a essa convivência forçada herdada dos pais. Chamar aquilo de amizade de infância já seria um exagero tremendo.
Curiosa, ela começou a se perguntar o que diabos Samuel pretendia arrancar dela depois de tanto rodeio.
— Fala logo de uma vez. O que você quer? — cobrou ela, já perdendo a paciência.
Percebendo que a corda estava prestes a arrebentar, Samuel decidiu ir direto ao ponto: — É sobre aquela Mariana Miranda de Carvalho da sua turma... Como é a sua relação com ela? Você não conseguiria o contato dela para mim, por favor?
Então era essa a armadilha.
Com a nova divisão de turmas no segundo ano, Laura e Samuel tinham ido para salas diferentes. A tal Mariana havia caído na mesma classe que ela. De traços delicados e postura graciosa, a garota representava com perfeição o ideal de primeiro amor dos rapazes da escola; só naquela sala, já havia meia dúzia deles rondando ao redor dela.
Antes da mudança de turmas, Samuel já tinha cruzado com Mariana algumas vezes e nunca demonstrara qualquer interesse. Porém, assim que o segundo ano começou, parecia ter sofrido um curto-circuito na cabeça: resolveu que queria namorar de qualquer jeito e admitiu abertamente diante dos amigos que estava caidinho por Mariana e que pretendia conquistá-la.
Ele não fazia questão nenhuma de disfarçar. Toda vez que a garota passava diante da sala dele, os colegas começavam a fazer algazarra e a empurrá-lo para a frente. Laura presenciara uma dessas cenas: os garotos o empurraram até o corredor para cumprimentar Mariana, e ele abrira um sorriso tímido, com as pontas das orelhas completamente vermelhas, um comportamento raríssimo nele.
Samuel era bonito, inteligente, tinha bom rendimento escolar e uma postura solar e expansiva. Embora às vezes fosse um tanto exibido e irritante, sempre fora alvo de suspiros entre as alunas do colégio.
Para as garotas que demonstravam interesse por ele, o rapaz costumava manter uma atitude fria e distante, ignorando os avanços sem cerimônia. No entanto, diante de Mariana, chegara a gaguejar de nervosismo, traído pelo rubor nas orelhas e pelo brilho deslumbrado no olhar.
Aquele ar tímido, inquieto e transbordando encantamento era algo que Laura nunca tinha visto nele até então.
— E aí? Quebra esse galho para mim! — insistiu Samuel, dando-lhe uma cotovelada de leve ao ver que ela permanecia em silêncio.
Laura mordeu a última lasca de gelo do palito e deixou que derretesse devagar na boca. A sensação congelante já havia passado, e o calor da pedalada finalmente começara a diminuir.
— Não somos próximas — respondeu ela com calma, assim que engoliu a água gelada.
— Mas vocês estudam na mesma sala, é muito mais fácil conversar com ela! Pede o número dela para mim, vai — insistiu ele, desavergonhado.
— Você já plantou plantão na porta da sua sala um monte de vezes quando ela passava. Por que nunca pediu pessoalmente?
— Com todo mundo olhando? Se ela recusar na frente da galera, onde é que fica a minha cara? — Samuel coçou a cabeça, demonstrando finalmente um pouco de vergonha.
— Se você quer conquistar a garota, não devia ter medo de passar vergonha — disse Laura, levantando-se do banco. Jogou o palito de madeira na lixeira ao lado e puxou a bicicleta, pronta para ir embora. — Se quer começar a namorar, o problema é seu. Não me meta no meio disso.
Últimos capítulos
O golpe surgiu do nada. Embora não levasse excessiva força física, o estalo soou nítido e seco.
A claridade da manhã despontava devagar. Pelo condomínio, os primeiros a acordar eram, na sua maiori
Samuel conduzia sem rumo certo pelas ruas da cidade. Tinha a cabeça em turbilhão. As acusações que
— Samuel, a Laura desapareceu! A voz de Francisca soou tão alta que Bernardo, mesmo do outro lado d







