Sinopse
Dez anos após a colisão suspeita que tirou a vida de seus pais e de seu irmão mais velho, Adriano Patrocínio, Clara Patrocínio vive sob a tutela sufocante da família Lobo da Silveira, vendo o controle do Centro Médico Patrocínio escorregar por entre seus dedos enquanto lida com a humilhante traição de seu noivo, Ethan Resende. Ao receber um vídeo anônimo que desmascara a farsa do suposto acidente, Clara rompe os laços do passado e sela um pacto perigoso com o implacável patriarca da família Resende, Doriano Resende, unindo forças em um casamento de conveniência movido por vingança e poder.
Enfrentando as armações cruéis da falsa e ardilosa Celeste Monteiro e a ganância desmedida de Verônica Lobo da Silveira, Clara utiliza manobras jurídicas e auditorias implacáveis para retomar seu império.
Capítulo1
Clara Patrocínio parou diante das portas imponentes do Centro Médico Patrocínio, hesitante antes de entrar no salão de festas.
Naquela noite ocorria o baile beneficente anual da instituição. Por direito, ela deveria ser uma das primeiras a chegar. Afinal, carregava o sangue da Família Patrocínio e era a herdeira de direito do hospital. Desde a morte de seu pai, a diretoria aproveitava eventos como aquele para lembrá-la de sua realidade: ostentava um sobrenome influente, mas não tinha poder real sobre o patrimônio que deveria ser seu.
Mesmo assim, era obrigada a comparecer. Sua tia Verônica havia ligado logo cedo para reforçar as ordens.
— Clara, os membros mais antigos do conselho estarão presentes hoje. Comporte-se com dignidade — disse Verônica ao telefone. — Deixe de lado aqueles vestidos baratos e não mencione o acidente dos seus pais para ninguém. Já se passaram dez anos.
Naquele momento, Clara organizava caixas nos fundos de uma loja de conveniência, com as mãos ainda sujas de pó de papelão.
— Entendi.
— E lembre-se debaixo do teto de quem você mora. As ações do Centro Médico não dependem da sua vontade.
Aquelas palavras calaram fundo.
Fazia uma década que ela e Juliano viviam sob o teto da Família Lobo da Silveira. Após o acidente fatal que tirou a vida de seus pais e do irmão mais velho, Adriano, Clara ficara em coma por duas semanas. Ao despertar, suas únicas lembranças eram o clarão dos faróis e o estrondo de vidros despedaçados. Os médicos constataram perda parcial de memória, e Verônica Lobo da Silveira assumiu a guarda dos dois órfãos.
Diante de todos, Verônica era uma tutora dedicada. Somente ao crescer Clara percebeu que as ações herdadas do pai eram administradas integralmente pela tia. A mesada concedida a ela e a Juliano mal cobria o valor de um único vestido comprado pelos parentes.
Clara não tinha dinheiro nem aliados entre os veteranos para defendê-la. Sabia que, se faltasse ao evento, o conselho usaria sua ausência como pretexto para declará-la inapta a assumir o hospital.
Por isso, ela foi.
Clara olhou para o próprio traje: um vestido longo preto, simples, comprado com o salário de seus trabalhos temporários. O tecido não era ruim, mas parecia humilde demais em meio ao brilho extravagante que dominava o salão.
Ergueu a cabeça e avançou para o saguão.
A luz dourada dos lustres de cristal iluminava os arranjos de rosas brancas sobre as mesas compridas, enquanto o tilintar de taças de champanhe preenchia o ar. Bastaram poucos passos para que alguns convidados a reconhecessem.
— Aquela é Clara Patrocínio, não é?
— A menina que os Lobo da Silveira acolheram depois da tragédia.
— Ouvi dizer que ela ainda tem vinte por cento do hospital.
— E de que adianta? Sempre viveu às custas dos outros.
Clara já não se abalava com esses comentários. Manteve a postura ereta e abriu um sorriso cortês ao se aproximar de um dos conselheiros.
— Boa noite, Sr. Harrison Fonseca.
— Clara, que bom que veio. — O idoso a avaliou dos pés à cabeça, detendo o olhar em seu vestido simples por um instante. — Como tem passado?
— Bem, obrigada pela gentileza.
— Viver por conta própria não é fácil. Uma jovem na sua posição deveria se apoiar mais na família.
— Sei cuidar de mim mesma.
O Sr. Harrison soltou um sorriso enigmático e encerrou a conversa.
Clara sabia muito bem que a intenção por trás daquelas perguntas não era saber do seu bem-estar, mas sondar se ela aceitaria a nova proposta de redistribuição de ações da diretoria.
Ela pegou uma taça de suco e tentou se afastar, mas uma voz familiar a chamou logo atrás.
— Clara.
Ela estancou.
Ethan Resende vestia um terno cinza-chumbo e mantinha a mão apoiada nas costas de uma mulher de feição pálida, que usava um vestido azul-claro e segurava um pequeno porta-comprimidos.
Era Celeste Monteiro.
Quatro anos antes, Celeste havia partido da cidade de forma repentina. Ethan levara muito tempo para superar o término, e fora Clara quem permanecera ao seu lado durante todo o luto. Ela o acompanhara em vigílias do lado de fora de hospitais, ajudara na mudança para o novo apartamento e enfrentara com ele as pressões da Família Resende.
Sempre acreditara ter um lugar de destaque no coração dele.
Agora, com o retorno de Celeste, os olhos de Ethan mal se desviavam da recém-chegada.
— O que faz aqui? — perguntou Ethan.
— Tia Verônica insistiu para que eu viesse.
— Eu pretendia buscar você, mas a Celeste passou mal à tarde — justificou ele em tom baixo. — Ela voltou de viagem faz pouco tempo e ainda está muito fraca.
Celeste tossiu de leve, fingindo constrangimento por interrompê-los.
— Clara, não me leve a mal. O Ethan só estava preocupado comigo.
— Não se preocupe — respondeu Clara depressa, temendo trair qualquer mágoa se demorasse um segundo a mais.
Ethan pareceu aliviado e virou-se para a acompanhante:
— Sente-se ali um instante. Preciso dar uma palavra com a Clara.
Celeste segurou a manga do terno dele.
— Não precisa, posso ficar com você.
— Você não parece bem.
— É só um pouco de cansaço.
Ethan franziu a testa e amparou os ombros dela. O gesto era dolorosamente familiar. No passado, quando Clara tinha febre, ele demonstrava a mesma preocupação protetora. Ver aquele cuidado dedicado a outra pessoa fez Clara perceber que já não conseguia fingir indiferença.
Fitando os dois, ela disse calmamente:
— Não se preocupem comigo. Vou falar com os conselheiros.
Ethan a segurou pelo pulso.
— Clara, você está chateada?
Ele ainda acreditava que se tratava de um capricho infantil, algo que se resolveria com meia dúzia de palavras doces antes que ela corresse de volta para os braços dele.
Clara olhou para a mão que a prendia.
— Você traz sua ex a um evento público e espera que eu fique feliz?
Ethan empalideceu diante da franqueza.
Celeste interveio de imediato:
— Desculpe, não sabia que causaria tanto incômodo. Só pedi a companhia do Ethan porque não estava me sentindo bem.
— Não precisa se desculpar — interveio Ethan, colocando-se à frente dela. — A Clara não quis dizer isso.
— E o que foi que eu quis dizer, então? — Clara o encarou.
Ethan abriu a boca, mas não encontrou resposta.
Nem ele próprio conseguia se justificar. Queria a condescendência de Clara em relação a Celeste, mas não admitia ser confrontado. Desejava a presença das duas ao seu redor, incapaz de enxergar o próprio egoísmo.
Naquele momento, o celular de Clara vibrou.
Uma mensagem vinda de um número desconhecido continha um arquivo de vídeo.
Não havia título, apenas uma sequência desconexa de caracteres.
A gravação era curta, com cerca de dez segundos.
Na escuridão da noite, um sedã preto aparecia estacionado no acostamento de uma rodovia onde acabara de ocorrer um acidente. O carro não tinha placas, mas a porta exibia um emblema desgastado pela chuva: o brasão antigo da Família Resende.
A imagem mudou de ângulo, revelando uma silhueta parada ao lado do carro capotado dos Patrocínio. O enquadramento cortava o rosto da pessoa, mostrando apenas a barra de um sobretudo.
Antes que a gravação terminasse, uma voz rouca e distorcida soou pelo alto-falante:
— Não acredite no laudo da perícia.
Os dedos de Clara ficaram gelados.
Dez anos antes, todos afirmaram que a tragédia fora um simples acidente de trânsito. Disseram que o pai dela dormira ao volante, fazendo o veículo colidir contra a mureta de proteção. O irmão mais velho, Adriano, morreu na hora; sua mãe, Margarida, não resistiu aos ferimentos no hospital, restando apenas ela e Juliano como sobreviventes.
No entanto, ela jamais tivera acesso ao relatório completo da polícia.
Quando acordou do coma, Verônica alegou que os documentos haviam sido arquivados pelas autoridades. O advogado de seu pai insistiu que ela era jovem demais para se preocupar com detalhes burocráticos. Com o tempo, sempre que ela tocava no assunto, todos a aconselhavam a esquecer o passado.
Agora, aquele vídeo revelava a presença de uma testemunha oculta no local da tragédia.
Clara tentou reproduzir o arquivo outra vez, mas a tela escureceu de repente. Ao tentar abrir novamente, o aplicativo bloqueou o acesso e exibiu uma mensagem curta: arquivo expirado.
— O que foi? — indagou Ethan ao lado dela.
Clara bloqueou o aparelho na mesma hora.
— Nada.
Respondeu por puro reflexo. Não pretendia revelar nada a ele, ciente de sua proximidade com a Família Resende. Além disso, sem saber a autenticidade do vídeo, seria imprudente tocar no assunto.
Ethan notou a palidez em seu rosto.
— Lembrou-se do acidente de novo?
— Não, foi só uma mensagem estranha.
— Clara, não dê ouvidos a provocações anônimas — sussurrou ele. — A polícia investigou o caso dos seus pais na época.
— Você chegou a ler o laudo completo?
Ethan hesitou.
— Todo mundo sabe que foi uma fatalidade.
— Eu perguntei se você leu o relatório inteiro.
Ele permaneceu em silêncio.
Clara compreendeu, naquele instante, que a certeza de Ethan vinha apenas do que os outros contavam, exatamente como acontecera com ela.
A poucos metros dali, junto às janelas panorâmicas, Doriano Resende observava o salão.
Pai adotivo de Ethan e verdadeiro patriarca da Família Resende, ele só comparecera àquela noite para formalizar acordos de doação ligados à instituição. Detestava a hipocrisia de eventos sociais e tolerava ainda menos que tentassem medir forças consigo.
Contudo, a reação de Clara ao olhar para o celular chamou sua atenção.
Não era a expressão de uma jovem com ciúmes, tampouco a mágoa de quem se sentia ignorada pelo parceiro.
Era o choque de alguém que acabara de descobrir ter vivido uma mentira a vida inteira.
— Descubra o que ela acabou de receber — ordenou Doriano a Tristão Cardoso, que aguardava logo atrás.
Tristão seguiu a direção do olhar do chefe.
— Clara Patrocínio?
— Fui claro o suficiente?
— Perfeitamente, senhor.
Doriano não disse mais nada. Apenas observou os esforços de Clara para disfarçar o impacto da notícia, vendo-a pousar a taça sobre a mesa antes de caminhar sozinha em direção à porta lateral.
Do outro lado do salão, Celeste também vigiava cada passo de Clara.
Na verdade, ela não sentia mal-estar algum. O frasco continha apenas vitaminas banais; seu prontuário médico verdadeiro estava guardado no carro. Forçara a presença de Ethan ali justamente para consolidar sua imagem de mulher frágil que merecia proteção. Contudo, temia que o conteúdo nas mãos de Clara arruinasse seus planos.
Virando-se de costas para Ethan, Celeste digitou uma mensagem para Brielle:
— Ela recebeu o arquivo. Precisamos descobrir o que ela viu.
A resposta veio segundos depois: — Se ela começar a remexer no acidente, tia Verônica não vai ter piedade.
Celeste encarou a tela com o maxilar tenso.
Pouco lhe importava o que Verônica faria com a sobrinha. Sua única preocupação era impedir que a atenção de Ethan voltasse para Clara.
Instantes depois, o telefone de Clara vibrou novamente.
O número desconhecido enviara uma segunda mensagem:
Se quiser saber quem causou a morte dos seus pais, venha sozinha até a piscina dos fundos.
Parada junto à saída, Clara fitou a escuridão do jardim através do vidro.
Sabia perfeitamente que poderia ser uma armadilha.
Contudo, tinha plena certeza de que, se ignorasse aquela oportunidade, talvez nunca descobrisse a verdade sobre a morte de sua família.
Clara apertou o celular na mão e empurrou a porta de acesso ao jardim.
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Últimos capítulos
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Depois de voltar da casa de repouso, Clara não disse uma única palavra, limitando-se a seguir com os
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