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Chaves do Passado

Chaves do Passado

Última atualização: 2026-08-28 03:38:51
By: Iris
Concluído
Idioma:  Português4+
4.4
5 Avaliação
50
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Sinopse

No dia do seu aniversário, a mecânica Riley Bennett vê sua vida desmoronar ao flagrar seu namorado, Caleb, em um caso com sua irmã, Brielle, que agora espera um filho dele. Rejeitada e expulsa de casa pelos pais, ela encontra refúgio e trabalho na oficina de um moto clube local. Ali, suas habilidades mecânicas excepcionais conquistam o respeito dos membros e a atenção protetora de Atlas Kane, um motociclista de postura fria que carrega os próprios traumas do passado. Ao lado de Atlas, Riley começa a desenterrar segredos enterrados há duas décadas, descobrindo que o trágico acidente do passado não foi fatalidade, mas uma armação da Gangue Jones ligada à Fundação Northgate e ao misterioso sistema Ledger.


Capítulo1

Quando Riley Bennett colocou a chave de volta no painel de ferramentas, seu pulso doía tanto que ela mal conseguia levantá-lo.

Já eram quatro noites seguidas de hora extra, e a caixa de câmbio daquele último utilitário tinha brigado com ela até o fim. Mas, no fim das contas, estava resolvido. Limpou o suor da testa com o polegar manchado de graxa e observou o Ford Mustang cinza repousando sob o elevador automotivo, sentindo um alívio breve no peito.

Michael Foster saiu do escritório com um macacão imundo debaixo do braço. Ao vê-la ainda parada na oficina, acenou logo em sua direção.

— Riley, vai embora agora.

— Espera, ainda faltam vinte minutos.

— Vai agora — ordenou Michael, em tom que não admitia discussão. — Você puxou dez horas por noite nesses quatro dias. Acha que eu não olho o registro de ponto?

Riley abriu a boca para retrucar, mas o chefe já tinha arrancado o trapo de sua mão e o jogado no cesto de panos sujos. — Hoje é dia vinte e dois — disse Michael, correndo os olhos pelo calendário na parede antes de encará-la. — Seu aniversário, não é?

Ela hesitou. Quase tinha se esquecido. Ou melhor, evitava pensar nisso de propósito, porque lembrar significava criar expectativas, e esperar coisas boas nunca foi o seu forte.

Tinha medo da decepção e, com o tempo, aprendeu a evitar qualquer tipo de ilusão.

— ... É — admitiu ela.

— Então o que ainda está fazendo aqui? O Caleb não disse que ia te levar para jantar?

Ao ouvir o nome de Caleb, a expressão de Riley mal se alterou, mas os cantos de sua boca se contraíram de leve.

Michael era atento a esses detalhes, mas não insistiu no assunto. Apenas pousou a mão no ombro dela, dando duas batidinhas paternais.

— Não faça o rapaz esperar. Carro quebrado dá para consertar amanhã; namorado, se cansar de esperar, vai embora.

Riley quase riu. — Você está com mais pressa do que eu.

— Estou com pressa porque você não comeu uma refeição decente este mês inteiro — retrucou Michael. — Rua. E não quero ver sua cara por aqui antes do meio-dia de amanhã.

Ela tirou o casaco de trabalho e o pendurou no gancho atrás da porta.

Antes de sair, lançou um último olhar para o quadro branco no fundo da oficina. No canto inferior direito, ainda restavam os diagramas elétricos que havia traçado com caneta de feltro na noite anterior.

Quando seu avô a ensinara a desenhar esquemas, dizia que se a fiação estivesse errada, o carro acabaria quebrando, não importava a distância percorrida. Desde então, ela guardava essa lição gravada em cada canto da mente.

Ao cruzar a porta da oficina, os postes de iluminação da rua já estavam acesos.

Era um entardecer do início de junho, o céu ainda não escurecera por completo e o ar trazia o cheiro de frango frito de uma lanchonete próxima. Montou em sua Honda CB400, e a vibração do motor dando a partida subiu pelo assento, fazendo seu corpo relaxar de repente.

Tinha de admitir: sentia uma ponta de entusiasmo hoje.

Nunca tivera um encontro de verdade. Desde que atingira a maioridade, sua rotina se resumia a consertar motores. Carregava quase sempre um cheiro forte de gasolina no corpo, e tanto garotos quanto garotas se mantinham afastados por causa do odor e de suas roupas manchadas de graxa.

Talvez por essa empolgação incomum, ficara três minutos a mais em frente ao espelho pela manhã. Escolhera uma camiseta preta limpa, sem uma única marca de óleo nas mangas.

Parecia uma daquelas garotas comuns e arrumadas.

Riley prendeu o cabelo e passou um pouco do batom que Sophie lhe dera no mês anterior. Passou com cuidado, sentindo-se estranha, como se tivesse vergonha de ser flagrada.

No fundo, porém, queria que Caleb visse. Queria que ele notasse que ela estava diferente do habitual.

Estavam juntos havia quase oito meses.

Fora ele quem tomara a iniciativa no início. Vira Riley agachada no posto de gasolina, examinando o chassi de um carro, e se aproximara para conversar, dizendo que ela "não era como as outras garotas".

Na época, ela até percebera que havia algo estranho naquela frase, mas preferiu não retrucar. Naqueles dias, sua carência falava mais alto; queria desesperadamente alguém ao seu lado.

Pensou que, se tudo corresse bem esta noite, poderia vestir aquela lingerie que comprara há mais de um mês e que continuava no fundo da gaveta, ainda com a etiqueta. Poderia dizer a Caleb que estava pronta.

Parou no sinal vermelho atrás de um sedã preto e tamborilou de leve os dedos sobre a tampa do tanque de combustível.

Não revelara seus planos para aquela noite, mas Caleb mandara uma mensagem dias atrás dizendo que "havia preparado uma surpresa". O tom dele soava tenso, como se temesse que ela não gostasse. Riley, lembrando-se de clichês de novelas, não resistira e respondera: "Não me diga que comprou um anel?" Ele demorara uma eternidade para mandar apenas uma linha de reticências.

Ela achou a atitude fofa, como se ele estivesse constrangido por ter sido desmascarado.

Parecia que, pela primeira vez na vida, alguém a levava a sério.

O sinal abriu.

Ela pilotou por três quadras e entrou na travessa onde morara durante os últimos vinte anos.

Era uma casa de fachada cinzenta, com uma luminária de sensor na varanda que parecia nunca apagar, e o gramado recém-aparado — obra de Grant. Riley estacionou na beira da entrada da garagem e desligou o motor.

Foi quando notou dois carros que não deveriam estar juntos ali.

À esquerda, a BMW branca de sua irmã, Brielle.

À direita, o Chevrolet preto de Caleb.

Parados lado a lado, colados um ao outro. Riley tirou o capacete, prendeu-o debaixo do braço e permaneceu imóvel na entrada por alguns segundos. Tentou convencer a si mesma de que Brielle só viera buscar alguma coisa, e que Caleb chegara mais cedo. Era apenas uma coincidência.

Seus pés, no entanto, não deram um passo em direção à entrada principal. Seu olhar contornou os veículos e se fixou na fresta da janela da sala de estar.

A cortina não estava totalmente fechada; dava para ver um vulto transitando perto do sofá, com movimentos soltos e despreocupados.

Parecia aguardar alguém.

Com a desconfiança crescendo no peito, Riley manteve o silêncio e contornou a lateral da casa, seguindo pelo caminho estreito ao lado da garagem até a parede dos fundos.

Havia ali uma janela que dava para o escritório.

Grant e Marlene costumavam assistir à televisão na sala todas as noites; o escritório sempre ficava vazio. Mas hoje era diferente.

Ouviu vozes.

Era a risada de Brielle. Aquele riso exagerado e falsamente inocente que Riley ouvira a vida inteira — o mesmo que a irmã dava toda vez que tomava algo de suas mãos: o casaco preferido, os elogios dos professores, ou a chave de fenda da primeira caixa de ferramentas que Riley comprara economizando a mesada.

Em seguida veio a voz de Caleb. Baixa, com um leve arquejo, como se tivesse acabado de fazer esforço físico ou estivesse contendo o fôlego.

— ... É sério mesmo? Você não disse que estava no período seguro?

Os dedos de Riley cravaram no parapeito da janela. Sabia que não devia escutar, mas o corpo parecia pregado ao chão, incapaz de se mover.

A voz de Brielle soou de novo, subitamente manhosa, naquele tom adocicado que só usava diante dos pais:

— E o que você queria que eu fizesse?... Não gostou?

Caleb hesitou por um instante.

— Não é que eu não tenha gostado, só... foi muito de repente.

— Mas você não tinha dito que, se acontecesse de eu engravidar, assumiria a responsabilidade?

Fez-se outro silêncio. Quando Caleb respondeu, o tom era ainda mais baixo, como se tivesse finalmente baixado a guarda:

— ... Eu lembro. Eu disse.

Foi então que Riley ouviu uma terceira voz. A de sua mãe.

A voz de Marlene ecoou do outro lado do cômodo, tão calma quanto quem conversa sobre trocar o guarda-roupa da estação:

— Se é assim, vamos organizar o noivado. O quanto antes. Não podemos deixar que os outros fiquem falando por aí.

— Mãe — protestou Brielle com um dengoso fingimento, embora Riley pudesse perceber o riso por trás das palavras —, a senhora nem perguntou se eu quero!

— E você não quer?

Brielle fez uma pausa e respondeu:

— Claro que quero.

Os dedos de Riley escorregaram do parapeito.

Ela ficou parada na sombra dos fundos, as costas coladas aos tijolos frios. Não sabia o que pensar. Eram pensamentos demais se atropelando em sua cabeça, a ponto de não conseguir assimilar nenhum. Lembrou-se dos três minutos a mais diante do espelho pela manhã, da lingerie ainda embalada no bolso da bolsa, e das reticências na mensagem em que Caleb prometera uma surpresa.

Imaginou que fosse um anel. Imaginou um pedido de casamento. Acreditou que ele finalmente a considerava alguém importante.

Mas Caleb estava dormindo com sua irmã. Engravidara Brielle. E seus pais estavam no cômodo ao lado combinando a data da festa de noivado.

Riley percebeu, de repente, que ninguém ali havia se lembrado dela.

Do começo ao fim, desde o primeiro dia em que pisara naquela casa, ela fora apenas um objeto descartável para a família. Na infância, quando Brielle quis ter aulas de piano, Grant transferiu a escrivaninha de Riley para o sótão.

Quando Brielle foi para a faculdade, Marlene pegou o dinheiro que Riley juntara durante dois anos de trabalho nas férias de verão para pagar o depósito da moradia estudantil da irmã. Toda vez que Riley perguntava: "E eu?", a resposta era sempre a mesma: ela é sua irmã mais velha; a mais nova não deve disputar com a mais velha.

Agora ela já era adulta. Por que nada havia mudado?

Riley sentiu um frio cortar-lhe o corpo inteiro.

Naquele instante, a porta do escritório se abriu. Caleb saiu de lá, com os botões da camisa desalinhados e o cabelo desgrenhado. Ao virar a esquina do corredor, paralisou de repente. Ele vira Riley.

A expressão dele mudou em uma fração de segundo.

Primeiro a surpresa, depois o pânico, e por fim uma culpa nauseante.

Ele abriu a boca, mas antes que pudesse articular qualquer palavra, Brielle surgiu logo atrás.

Brielle não demonstrou surpresa alguma ao ver Riley. Nem sequer pareceu abalada.

Encostou no batente da porta, pousou uma das mãos sobre o ventre e sorriu — o mesmíssimo sorriso que Riley escutara através da janela.

— Chegou mais cedo do que eu pensei — comentou Brielle.

Riley fixou os olhos no rosto dela.

— Vocês estavam no meu quarto?

Brielle deu de ombros, como se respondesse: "Onde mais seria?".

Riley foi tomada por uma sensação de puro absurdo. Todas as emoções giraram dentro dela até se transformarem em uma espécie de frieza cortante, como ferro em brasa mergulhado na água — um chiado rápido e nada mais além de vapor branco.

— Você sabia que eu tinha um encontro com ele hoje à noite? — indagou Riley.

Brielle não disse nada. Caleb deu um passo à frente e estendeu a mão na tentativa de tocar o ombro de Riley.

— Ri, eu...

— Não encosta em mim — cortou ela. Sua voz saiu plana, tão neutra que ela mesma se surpreendeu.

Grant saiu do escritório em seguida. Parou à porta, com o paletó impecavelmente abotoado. Seu olhar hesitou sobre o rosto de Riley por um breve instante, mas não se demorou.

— Já que você ouviu tudo — declarou ele —, trate de desocupar o quarto. A Brielle vai precisar de espaço.

Riley olhou para ele.

— O meu quarto?

— Você não precisa de um quarto tão grande para viver sozinha. Quando o bebê nascer, aquele espaço vai ser o quarto da criança.

— ... E para onde eu vou?

Grant franziu a testa, como se ela estivesse fazendo uma pergunta que nem merecia resposta.

— Você não tem amigos? Fique na casa de algum deles por um tempo. Depois que as coisas se ajeitarem por aqui com a sua irmã, a gente vê o que faz.

Se ajeitarem. A gente vê.

Riley sentiu um nó subir pela garganta.

Percebeu que não lhe restava uma única palavra a dizer.

Sempre soubera que esse seria o desfecho. Só não esperava que chegasse de forma tão cruel e explícita.

Marlene saiu do escritório segurando uma pasta de documentos, de cabeça baixa, anotando algo como se tudo aquilo não passasse de uma tarefa doméstica de rotina.

— A festa de noivado da Brielle ficou para o próximo sábado — anunciou Marlene, sem erguer os olhos. — Riley, você deve comparecer. Os parentes estarão todos lá, não podemos dar motivo para pensarem que a família está dividida.

Riley encarou a mãe.

— Você acha que sou eu quem está querendo arrumar confusão?

Marlene olhou para ela em silêncio, a feição fechada e desaprovadora.

Como quem diz: tinha que ser você, sempre complicando as coisas.

Riley abaixou a cabeça, exausta demais para continuar discutindo. Virou-se, entrou na casa, subiu as escadas e empurrou a porta do próprio quarto.

A cama continuava arrumada, e na mesinha de cabeceira ainda estava o copo com água pela metade que deixara antes de sair pela manhã.

No ar, pairava o rastro de um perfume adocicado.

O perfume de Brielle. Riley abriu o guarda-roupa, puxou do fundo a lingerie nova com etiqueta, segurou-a com força entre os dedos por alguns instantes e a atirou direto na lixeira.

Encheu apenas uma mala de viagem. Algumas mudas de roupa, o carregador e o velho manual de mecânica herdado do avô.

Ao descer as escadas, a sala estava deserta; todos continuavam trancados no escritório. Ouviu o riso de Brielle, Grant ao telefone negociando o local do evento e Marlene comentando que "o vestido de noiva precisava ser encomendado com urgência".

Riley não olhou para trás.

Quando cruzou a porta da frente, a noite já havia caído por completo. Prendeu a mala no banco traseiro da moto, montou e deu a partida, o ronco do motor ecoando na entrada vazia. Pelo espelho retrovisor, lançou um último olhar àquela casa cinzenta.

No reflexo do canto do espelho, avistou um sedã preto estacionado na esquina da travessa.

Riley estreitou os olhos, mas não conseguiu enxergar quem estava dentro. Tentou pensar que fosse de algum vizinho, embora soubesse perfeitamente que ninguém nunca parava naquele ponto da rua.

Ela acelerou. O facho do farol cortou a rua escura à frente enquanto o vento da noite bagunçava seus cabelos. Não derramou uma lágrima no caminho até a casa de Sophie.

Apenas no instante em que parou diante do sinal vermelho, ao olhar para o guidão, percebeu que suas mãos tremiam sem parar.

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