Sinopse
Na véspera de seu noivado, Vivienne Hart, enfermeira de emergência e legítima herdeira do Grupo Hartwell, descobre uma conspiração implacável: seu noivo Adrian Cole, sua confidente Sienna Vale e seu meio-irmão Ethan Hart planejam declará-la mentalmente incapaz para usurpar sua herança e o fundo fiduciário de sua mãe. Em uma fuga decidida sob chuva torrencial, Vivienne cruza o caminho de Damon Kane, o enigmático líder do Raven MC, que investiga em segredo a morte da irmã Naomi.
Sob o abrigo do motoclube e enfrentando desconfianças internas, Vivienne transforma sua dor em estratégia. Aliada a Damon, ela desestabiliza a frágil união de seus traidores, conquista o apoio do experiente conselheiro Foster e desenterra fraudes ligadas ao projeto da Ilha Bluehaven e ao perigoso esquema de Victor Blackwell. Entre manobras corporativas e perigos do submundo, Vivienne prepara o contra-ataque definitivo para expor a verdade e retomar o controle de seu destino.
Capítulo1
Vivienne Hart retirou a máscara cirúrgica. As lâmpadas do pronto-socorro ardiam com uma intensidade quase agressiva, fazendo seus olhos pesarem de cansaço. Apoiada no balcão do posto de enfermagem, repassou mais uma vez o prontuário de reanimação, certificando-se de que cada horário de administração e dosagem estivesse impecável antes de assinar o próprio nome.
— Vivienne, o rapaz acordou — avisou a chefe de enfermagem, debruçando-se no batente ao fim do corredor. — A família perguntou quem ficou de plantão à noite, querem agradecer pessoalmente.
Vivienne apenas acenou de leve com a mão.
— Não é necessário. Diga a eles que descansem, por favor. Não estive sozinha nessa; o plantonista e o anestesista também participaram.
A supervisora a encarou por um breve segundo, sem insistir. Após três anos de convivência naquele hospital, todos conheciam sua postura. Ela nunca deixava seu nome com os parentes dos pacientes e jamais mencionava a própria profissão em entrevistas ou matérias da imprensa. Alguns achavam que se tratava apenas de discrição exagerada; apenas Vivienne conhecia o real motivo: recusava-se a permitir que alguém, naquele pronto-socorro, ligasse a enfermeira Vivienne à herdeira do Grupo Hartwell.
Depois de vestir suas roupas normais, pegou o celular no fundo do armário. Havia três mensagens não lidas de Adrian Cole na tela. Conforme corria as mensagens, um sorriso suave surgiu nos seus lábios.
A primeira viera às sete da noite: "De plantão hoje? Não se esqueça de comer alguma coisa, nada de ficar quatro ou cinco horas de estômago vazio outra vez."
A segunda chegara às nove: "Acabei de sair de uma reunião. Vi que aquele restaurante que você comentou tem mesa semana que vem, então reservei para quinta, às sete da noite. Se você estiver escalada nesse dia, eu mudo o horário."
A última fora enviada havia poucos minutos: "Ainda no hospital? Aposto que não jantou. Deixei uma sopa na geladeira para você hoje à tarde, naquela térmica branca."
Vivienne permaneceu encostada no armário, relendo cada palavra do início ao fim. Sabia que alguns amigos consideravam Adrian atencioso demais, quase a ponto de parecer irreal. Porém, nos últimos dois anos, ele agira exatamente assim: decorava todas as suas escalas, lembrava-se dos comentários que ela soltava sem pretensão e, quando ela voltava exausta demais até para falar, colocava diante dela as comidas de que mais gostava.
Ela não costumava confiar nas pessoas com facilidade, mas Adrian a fazia sentir que valia a pena.
Aquela dedicação aqueceu seu peito. Rapidamente, digitou uma resposta: "Acabei de sair, vi as mensagens. Vou tomar a sopa quando chegar em casa."
Pausou por um instante e acrescentou:
"Não precisa mudar o horário de quinta. Posso trocar meu turno com alguém."
Ao enviar, guardou o aparelho no casaco e seguiu para a saída dos fundos. O vento noturno a atingiu com o frescor típico do início do outono. Ela se encolheu na jaqueta e apressou o passo.
O carro estava no beco tranquilo atrás do hospital. Era um modelo antigo deixado por sua mãe, Celeste — discreto por fora, mas com o motor e o acabamento interno impecavelmente preservados. Vivienne sentou-se ao volante e, antes de dar a partida, olhou para a pequena caixinha de veludo azul-marinho sobre o banco do passageiro.
Dentro dela havia um anel masculino com uma pedra escura, engastada em titânio fosco. Uma peça sóbria, sólida, sem qualquer detalhe excessivo.
Ela passara semanas procurando.
Queria apenas retribuir a Adrian com uma surpresa à altura.
Adrian nunca se importara com o que ela vestia ou usava. Ele se lembrava de suas escalas de trabalho, de seus pratos preferidos e de como ela ficava calada após um plantão puxado, descansando a cabeça no ombro dele por minutos a fio. Esses pequenos gestos transmitiam a ela uma verdade muito maior do que qualquer joia cara. Por isso, escolhera um anel sem ostentação, mas durável — igual às atenções que ele lhe dedicava dia após dia, com discrição e constância.
Com as mãos no volante, permaneceu parada por alguns instantes.
Na verdade, Adrian nunca estabelecera como deveria ser um pedido de casamento, tampouco a pressionara para oficializar o noivado. No entanto, desde o outono anterior, sempre que ela ficava no hospital até de madrugada, ele perguntava com sutileza: "Se você não precisasse se esforçar tanto todos os dias, a sua vida não seria mais tranquila?"
Ela sabia que vinha de uma preocupação genuína. A rotina na emergência era pesada; às vezes, emendava dois plantões noturnos e, ao chegar em casa, desabava na cama. Quando acordava, encontrava dezenas de mensagens dele perguntando se já havia comido, quantas horas tinha dormido e se queria companhia naquele dia.
Vivienne acreditava que, após o noivado, tudo encontraria um ritmo mais estável. Ela aprenderia a dosar as horas de trabalho, e ele não precisaria viver apreensivo à espera de notícias.
A tela do celular acendeu novamente. Era Matteo Bellini, avisando que o anel tivera o tamanho ajustado e que havia alguém na loja aguardando sua retirada.
Ela pensou rápido e decidiu passar por lá no caminho. Já passava das onze, mas a joalheria ficava no térreo do edifício corporativo pertencente ao Grupo Hartwell, perto do seu apartamento. Além disso, Matteo nunca se importava de esperá-la.
Estacionou nos fundos do prédio e entrou pela porta lateral do saguão. Àquela hora, o espaço estava deserto, com a iluminação reduzida pela metade e parte dos elevadores desligada. Ao se aproximar da vitrine, viu a luz âmbar ainda acesa através do vidro. Matteo estava atrás do balcão, folheando uma revista antiga. Assim que a viu entrar, fechou a publicação e se levantou.
— Imaginei que passaria essa hora — disse ele com um sorriso, deslizando um saquinho de veludo azul pelo balcão. — O ajuste está pronto. Veja se ficou bom.
Vivienne abriu o saquinho e ergueu a joia contra a luz. Na face interna do aro, estavam gravadas as letras minúsculas: "V&A", um pedido feito logo na encomenda inicial. Na época, Matteo não fizera perguntas; apenas confirmara a grafia antes de arquivar o pedido.
— Ficou perfeito. — Ela guardou o anel de volta. — Muito obrigada, Matteo.
— Imagina. — Ele se apoiou na borda do balcão e a observou com atenção. — Você parece mais magra ultimamente. Muito trabalho no hospital?
— O de sempre. Dias atrás chegou um rapaz ferido num acidente de carro, estado grave, mas conseguimos estabilizar. Quando acordou, pediu minhas informações para agradecer pessoalmente, mas preferi recusar.
— Você continua igualzinha, não para de falar dos seus pacientes. — Matteo sorriu de leve e empurrou discretamente um álbum antigo para o canto interno do balcão. O movimento foi sutil, mas Vivienne notou.
— O que é isso?
— Fotos antigas que a sua mãe deixou comigo. — Ele hesitou antes de continuar: — Encontrei mês passado, organizando o estoque. Vocês duas vieram aqui uma vez; ela escolheu um par de abotoaduras e você tinha esse tamanho. — Ele indicou a altura com a mão.
Vivienne pegou o álbum e abriu a primeira página.
A fotografia trazia as bordas amareladas pela passagem do tempo, mas a imagem continuava nítida. Celeste Hart aparecia abaixada em frente ao mostrador, vestindo um sobretudo cinza-claro, os cabelos presos para trás. Ela conversava de lado com uma Vivienne de cerca de sete anos, que vestia um suéter de lã branca e segurava uma amostra de rubi, olhando para cima enquanto ouvia as explicações da mãe.
Ela se lembrava daquele dia. Celeste lhe dissera que o valor de uma joia não estava apenas na sua raridade, mas na forma como era lapidada, em quem a usava e nas memórias que carregava.
— Naquela época, a sua mãe sempre dizia que não queria você presa aos negócios do Grupo Hartwell a vida inteira — comentou Matteo num tom sereno. — Ela costumava falar que o seu gênio era mais firme que o dela. Quando você colocava na cabeça que não queria seguir um caminho, ninguém conseguia dobrar a sua vontade.
Vivienne não respondeu. Fechou o álbum devagar e o colocou sobre o balcão.
Fazia quatro anos que Celeste havia partido, mas certas palavras permaneciam vivas. Durante o período em que esteve doente, a mãe repetiu várias vezes: se algum dia Vivienne não quisesse permanecer no grupo, não precisava ficar. O mundo era vasto, e ela tinha o direito de escolher o lugar onde se sentisse bem.
Por isso, Vivienne optou pela área da saúde, tirou a licença de enfermagem e passou a cobrir as noites no pronto-socorro, levando uma vida completamente distante da herdeira dos Hartwell. Seus amigos eram, em sua maioria, colegas de trabalho; ninguém sabia o valor guardado em suas contas bancárias, e ninguém mencionava "a empresa do seu pai" na sua presença.
Embora todos soubessem que seu pai havia falecido há muito tempo e que ela herdara tudo após a morte da mãe.
Ela acreditava ter construído a própria vida com base nessas escolhas. Até que encontrou Adrian, Sienna e as pessoas que pareciam amá-la por quem ela era, como qualquer mulher comum.
— Obrigada por guardar a foto com tanto carinho — disse Vivienne, recolhendo o saquinho de veludo.
Matteo a acompanhou até a saída da loja.
— Vivienne, se a sua mãe pudesse ver que você está bem, tenho certeza de que ficaria em paz.
Vivienne sorriu de leve, sem confirmar nem negar.
Entrou no carro e seguiu em direção ao hotel.
Adrian estava hospedado na suíte da cobertura no centro da cidade; na manhã seguinte, pegaria um voo cedo para negociar um novo contrato em outra cidade. A ideia inicial era entregar o anel no dia seguinte, mas ela decidira não adiar mais.
Estacionou na rua em frente ao hotel e caminhou até a entrada lateral de serviço. Carregava o cartão de acesso temporário que o gerente lhe entregara no passado, quando precisara retirar documentos esquecidos por Adrian.
O elevador subiu a partir do terceiro subsolo, vazio. Encostada na parede espelhada, ela observava os números passarem: subsolo dois, subsolo um, térreo... e continuaram subindo. Seu coração batia num compasso acelerado, as palmas das mãos ligeiramente úmidas, mas ela manteve a postura firme.
As portas se abriram na cobertura. Ao sair, o carpete espesso abafou completamente o som dos seus passos.
A suíte ficava a cerca de vinte passos do elevador. Ao se aproximar, percebeu que a porta não estava totalmente fechada, deixando uma fresta por onde escapava a luz quente do interior, acompanhada por vozes.
Vivienne diminuiu o ritmo.
A primeira voz que ouviu foi a de Adrian. O tom era descontraído, carregado de uma leveza que ela raramente presenciava nele:
— Ela é capaz de passar aqui esta noite. Mas como foi pegar o anel com o Matteo, deve demorar um pouco ainda.
Os dedos de Vivienne se fecharam devagar.
A segunda voz pertencia a Sienna. Ela soltou uma risadinha familiar, suave, terminando num tom manhoso:
— E ela desconfia que você me chamou aqui hoje?
— Claro que não. Mas tanto faz, ela nunca suspeitaria de nada. É ingênua demais; acredita em qualquer coisa que você disser.
Vivienne permaneceu imóvel sobre o carpete. O veludo em sua mão começou a ser amassado com força. Foi então que uma terceira voz interveio — era Ethan, com um tom grave e uma frieza que ela jamais ouvira dele:
— E depois que ela pegar o anel, o que vai fazer? Vai te pedir em noivado direto?
— Vai — respondeu Adrian, achando graça. — Ela tem certeza de que estou só esperando o pedido dela. Duvida que, do jeito que ela é, vai preparar toda uma encenação? É capaz até de chamar você para ser testemunha.
Sienna riu com mais vontade:
— Então eu devia fingir que me emocionei? Ou conto a verdade logo e digo que sempre quis tomar o lugar dela?
— Você já tomou — afirmou Adrian, com uma intimidade que Vivienne nunca imaginara ouvir saindo da boca dele. — Tudo o que ela tem vai ser seu muito em breve. Assim que a internarmos no sanatório, as ações do Grupo Hartwell, o fundo fiduciário que a Celeste deixou e a vida inteira dela passam para o seu nome.
Do lado de fora, Vivienne não moveu um único músculo.
Sua mente travou por alguns segundos, tentando processar cada palavra. Sanatório. Ações. Fundo fiduciário. Passam para o seu nome.
— Ethan, e no conselho de administração? Tem certeza de que está tudo sob controle? — indagou Adrian novamente. — O Victor garantiu que, se a opinião pública a descredibilizar, ele segura qualquer oposição lá dentro.
— Eu conheço os trâmites da diretoria melhor do que você — devolveu Ethan. — Basta declará-la incapaz de tomar decisões por conta própria para que os direitos de herança sejam congelados temporariamente. Quando a tutela for deferida, quem estiver no comando assume o controle dos negócios.
— Que obviamente vai ser você — completou Sienna. — Você é o meio-irmão, faz todo o sentido.
— E quem vai conversar com o médico sobre o estado dela? — questionou Adrian.
— A Sienna é a mais próxima dela e tem contato direto com os médicos, então é a pessoa ideal. Basta alegar que ela vem sofrendo com insônia, crises de descontrole e estresse extremo por causa do trabalho. Os registros do hospital, somados ao material que temos em mãos, são mais do que suficientes.
A respiração de Vivienne tornou-se quase imperceptível.
Lá dentro, Sienna comentou:
— Ela ainda está com aquele anel na mão? Fiquei curiosa para saber qual modelo escolheu.
— Que diferença faz? — respondeu Adrian, num tom preguiçoso e desinteressado. — Ela não vai ter utilidade para isso mesmo.
Vivienne olhou para a própria mão fechada em torno do saquinho de veludo. Apertava-o com tanta força que as unhas se cravavam na pele, deixando quatro marcas avermelhadas na palma.
O homem que ela acreditava colocar suas vontades em primeiro lugar, a amiga em quem confiava e o meio-irmão com quem convivia... cada um deles conspirando friamente para tomar tudo o que era seu.
Todo aquele afeto não passava de uma farsa.
Levou alguns segundos para ter certeza de que suas pernas não cederiam. Então, agachou-se lentamente e depositou a bolsa de veludo sobre o carpete, como se aquele objeto nunca lhe tivesse pertencido.
O frio tomou conta do seu corpo, adormecendo cada extremidade.
Ela reuniu todas as forças para não emitir o menor ruído.
Do outro lado da porta, as risadas e a conversa prosseguiam. Sienna perguntava quando Victor daria início ao processo, Ethan afirmava que na semana seguinte as coisas avançariam, e Adrian servia doses de bebida, com o tilintar cristalino das taças ecoando com leveza.
Vivienne permaneceu encostada na parede fria por um longo tempo. Não soube dizer em que momento se ergueu, nem como conseguiu retornar ao elevador. Apenas se lembrava de encarar o reflexo na parede espelhada durante a descida: sua expressão estava impassível e, fora as pupilas ligeiramente dilatadas, nada denunciava o que acabara de presenciar.
Levou a mão ao bolso interno do casaco e puxou outro aparelho celular. Era um modelo antigo, preto, com uma rachadura cruzando a tela, deixado por Celeste antes de falecer. Havia apenas um contato registrado na memória: Silas.
Discou o número e aguardou dois toques até ser atendida.
— Vivienne.
— Silas. — Sua voz saiu surpreendentemente estável. — Preciso que você apague todos os registros de vigilância da cobertura do hotel no centro desta noite. Histórico do cartão de acesso, gravações do elevador e as imagens frontais do saguão. Estou fazendo um pedido formal, mas você sabe como agir.
Houve um silêncio de dois segundos na linha.
— Entendido — respondeu ele, sem qualquer traço de emoção. — Em trinta minutos, ninguém encontrará mais nada.
— Obrigada.
Desligou a chamada e guardou o telefone de volta no bolso interno.
O elevador alcançou o térreo. Ela cruzou a passagem de serviço e saiu do hotel. Quando a brisa da noite tocou sua pele, seu rosto já estava completamente gélido.
---
Últimos capítulos
Quando voltaram para a sede do Raven MC, a noite já havia engolido quase toda a claridade.
À tarde, Damon saiu de carro com Vivienne da sede do Raven MC. Ele não disse para onde iam, e Vivie
Logo no início da manhã seguinte, o celular de Vivienne tocou. Na tela brilhava um número desconhec
No caminho de volta para o Raven MC, Vivienne permaneceu em silêncio, apoiada contra a janela do car







