Sinopse
Sempre relegada à sombra da primogênita Victoria Castro, a jovem Avery Castro viveu como uma mera criada em sua própria casa. Quando o temido Damon Fontoura, o Rei Alfa afligido por uma fúria incontrolável, convoca uma cerimônia nupcial, a Casa Castro arquiteta um plano vil: dopar e trancar Avery, forçando-a a ir para o Palácio Negro no lugar da irmã aterrorizada pela lenda da maldição real. Contudo, ao cruzar os portões da Capital Real, Avery recusa o papel de vítima, valendo-se de sua inteligência perspicaz para sobreviver às intrigas palacianas e descobrindo que sua própria presença é o único bálsamo capaz de aplacar a fera que consome o monarca.
Enquanto rebeliões lideradas por Ronan Caldeira assolam a fronteira e o antigo soberano Marcus Fontoura ressurge das sombras orquestrando rituais de Ancoragem de Sangue, conspirações e falsos herdeiros ameaçam desmoronar o reino.
Capítulo1
Avery acordou antes do amanhecer.
Não porque tivesse descansado o suficiente, mas pelo tilintar insistente de louças vindo da cozinha no andar de baixo. Os ruídos se sucediam em ondas secas, como se a intimassem a pular da cama sem demora. Abriu os olhos e encarou as tábuas amareladas do teto, sem se levantar de imediato.
Sabia exatamente que dia era aquele.
À noite, a Casa Castro participaria do Banquete Real.
Para Victoria, seria a grande oportunidade de ostentar beleza, circular entre os nobres e mudar o destino de todos. Para Avery, não passava de mais uma jornada exaustiva: ajeitar os vestidos da irmã mais velha, servir chá, carregar bandejas e passar horas atenta ao humor alheio.
Sabia disso por experiência própria; em todas as ocasiões importantes, o roteiro era o mesmo. Victoria desempenhava o papel de princesa impecável da família, enquanto a ela restava a função de garantir que a joia da casa não cometesse o menor deslize.
Passos apressados ecoaram no corredor, seguidos pela voz da mãe, Charlotte.
— Avery, ainda não levantou? Precisamos provar o vestido de Victoria de novo.
Avery sentou-se na cama e afastou o cobertor.
— Já estou de pé.
— Então se apresse. Não faça todo mundo esperar por você.
A voz de Charlotte não trazia resquício de afeto, apenas impaciência. Sua preocupação não era se a filha mais nova havia dormido bem, mas sim o risco de ela atrasar os preparativos da primogênita.
Avery vestiu o velho vestido cinza deixado ao lado da cama. Os punhos já tinham sido ajustados três vezes; os pontos eram miúdos e firmes, quase invisíveis, mas o tecido puído denunciava a idade da peça. Tirou a caixinha de costura da gaveta e arrematou um fio solto na barra.
Não tinha dinheiro para roupas novas.
Na verdade, a família sequer cogitava que ela precisasse de vestidos novos. Graham já dissera certa vez que, em uma festa, a única pessoa que importava era Victoria. Bastava Avery ficar um passo atrás da irmã para que ninguém notasse o que ela estava vestindo.
Ao sair do quarto, encontrou Charlotte parada no fim do corredor. A mãe lançou-lhe um olhar rápido que recaiu sobre o tecido gasto do vestido cinza, mas desviou os olhos quase em seguida, sem dar qualquer importância ao detalhe.
— Vá para o quarto de Victoria. O xale dela está amassado.
— Posso comer alguma coisa antes? — pediu Avery em tom baixo.
Charlotte franziu a testa.
— Você só pensa em si mesma.
Avery estacou por um instante.
Estava de estômago vazio desde a noite anterior e agora era chamada de egoísta. Todas as manhãs, uma bandeja farta era levada diretamente aos aposentos de Victoria, enquanto a ela restava apenas perguntar se poderia engolir um bocado antes de começar a trabalhar.
Ainda assim, não retrucou. Discutir não adiantava nada; só irritaria Charlotte e a deixaria sem café da manhã do mesmo jeito.
— Vou ajeitar o xale primeiro.
A porta do quarto de Victoria estava aberta. Quando Avery entrou, a irmã mais velha estava sentada diante da penteadeira, cercada por duas criadas que lhe arrumavam o cabelo. Sobre o móvel repousavam três colares, cinco pares de brincos e uma pequena tiara adornada com pedras brancas.
Ao ver Avery entrar, Victoria estendeu a mão com autoridade.
— Onde está o meu xale? — perguntou com a mesma indiferença com que se dirigiria a uma criada qualquer.
— Já trouxe.
Avery aproximou-se e entregou a peça. Victoria não a pegou; apenas inspecionou a barra do tecido com desconfiança.
— Não tinha um rasgo bem aqui?
— Remendei ontem à noite. Não dá para ver nada.
— E você acha que não dar para ver é suficiente? — rebateu Victoria, insatisfeita. — É um Banquete Real, não um jantar qualquer em casa.
Avery baixou os olhos para examinar o xale.
— Se não ficou bom, posso refazer os pontos.
— Claro que vai refazer. E mais uma coisa: não fique longe de mim hoje à noite. Papai já avisou que você é a responsável por cuidar de tudo o que eu precisar.
— Eu sei.
Victoria voltou a fitar o próprio reflexo no espelho com vaidade e ajeitou a tiara.
— Disseram que o Rei Damon Fontoura vai comparecer pessoalmente.
A voz dela ganhou um tom animado, e seus olhos brilharam com um entusiasmo incomum, algo que Avery raramente presenciava.
Avery ajeitava as dobras do xale e respondeu sem erguer a cabeça:
— Ouvi os criados comentando.
— Você sabe o quanto ele é perigoso? — perguntou Victoria.
— Tenho uma ideia.
— Então trate de manter distância dele hoje.
Avery ergueu os olhos.
— Por quê?
O sorriso de Victoria desapareceu.
— Porque uma pessoa como você não deve se aproximar dele. Com essa sua pose indefesa, é fácil despertar a comiseração dos homens. Se fizer alguma besteira que passe dos limites, vai ser a vergonha da nossa família.
Avery compreendeu no mesmo instante.
Victoria não estava preocupada com o seu bem-estar; temia apenas que a irmã lhe roubasse as atenções.
Deixou o xale sobre a mesa e permaneceu em silêncio, sem responder.
Na hora do desjejum, Avery foi a primeira a chegar, mas acabou sendo a última a se sentar. Precisou antes verificar se o vestido de baile de Victoria estava impecável e colocar o convite do banquete ao alcance da mão de Graham.
Ao fitá-la, a primeira coisa que Graham disse foi:
— Você ainda está usando esse vestido?
Avery olhou para a própria roupa e respondeu com calma:
— Foi mamãe quem mandou.
Charlotte interveio de imediato:
— O salão vai estar na penumbra, ninguém vai prestar atenção nela.
Graham não insistiu. Sua atenção voltou-se rapidamente para Victoria.
— Preste atenção hoje à noite. O Banquete Real não é uma festa comum. Não beba demais, não fique de conversa a sós com desconhecidos. Sobretudo quando o rei aparecer, controle cada gesto e mantenha a compostura absoluta. Não cometa nenhuma gafe.
Victoria assentiu com docilidade.
— Entendido, pai.
— Se algum nobre tentar puxar assunto, avalie a linhagem dele primeiro. O seu desempenho nesta noite vai definir se a Casa Castro conquistará ou não o apoio da realeza.
Avery ouvia tudo em silêncio.
Durante muito tempo, acreditara que o rigor do pai com Victoria vinha das altas expectativas depositadas na primogênita. Aos poucos, porém, percebeu a verdade: Graham não a ensinava a se defender, apenas a moldava para transformá-la na moeda de troca mais valiosa da família.
Quanto a ela, nem sequer a esse posto pertencia.
Sua única função era garantir que a moeda estivesse devidamente polida para brilhar.
À tarde, Avery foi até o jardim colher as flores que seriam usadas nos arranjos da noite. Ao passar pelo muro externo, ouviu dois criados conversando aos sussurros.
— O rei vai mesmo comparecer hoje?
— Claro que vai. Dizem que a maldição voltou a se manifestar com força esses dias... Ele chegou a abrir fendas nas paredes de pedra da Torre Oeste só com as mãos.
— E por que ainda insiste em dar um banquete?
— O soberano precisa de um herdeiro, e de uma companheira capaz de suportar o poder que ele carrega.
— E o que aconteceu com as mulheres anteriores?
— Shh! Não fale disso. — O criado ficou sério de repente.
Ao notarem a presença de Avery, os dois calaram-se no mesmo instante.
Ela não fez perguntas. Ao passar rente ao muro, viu que ao longe, no horizonte da Capital Real, o Estandarte do Lobo Negro havia sido hasteado.
O pano escuro se destacava contra o céu cinzento, como uma sombra densa e imutável que nem a claridade conseguia dissipar.
Pouco antes do cair da tarde, Graham foi conferir os preparativos pela última vez. Ao avistar Avery parada ao lado de Victoria, disparou de pronto:
— Não saia de perto da sua irmã hoje à noite. Fique por perto para servi-la se ela precisar de vinho, de um xale ou caso precise de apoio durante uma conversa com os nobres.
— Terei algum momento livre para mim? — indagou Avery.
Graham encarou-a com estranheza, como se não concebesse a razão de uma pergunta daquelas.
— Você não tem assuntos próprios para resolver. Sua única obrigação é atender Victoria.
As palavras soaram com naturalidade desconcertante.
Naquela casa, todos já estavam acostumados com o fato de Avery não ter vida própria.
Quando a carruagem partiu, Victoria acomodou-se no centro do assento, ladeada por Charlotte. Graham sentou-se à frente, segurando com firmeza o convite do Banquete Real entre os dedos.
Avery ocupou o canto junto à porta.
Pelo vidro da janela, observou o próprio reflexo: o vestido surrado, o pescoço desprovido de qualquer adorno, as pontas dos dedos ásperas pelos anos de costura. Não parecia alguém a caminho de um baile de gala, mas sim uma serviçal levada a reboque para resolver os problemas alheios.
De repente, Victoria segurou sua mão.
— Avery, você tem que me ajudar hoje à noite.
Avery virou-se para ela.
— Ajudar em quê?
— Se o rei falar comigo, sopre o que devo responder. Se eu ficar com medo, fique ao meu lado. Se alguém perguntar sobre a minha saúde, fale por mim.
— Por que você está com tanto medo?
Os dedos de Victoria apertaram os seus com força.
— Porque ele é Damon Fontoura.
Pela primeira vez, a irmã não conseguiu disfarçar o terror que sentia.
Ao fitar o rosto pálido de Victoria, a desconfiança que brotava no peito de Avery amoleceu aos poucos. Continuava acreditando que a irmã estava apenas apavorada e precisava genuinamente de seu amparo.
Mal sabia ela que, finda aquela noite, todo o fardo daquele medo recairia sobre os seus próprios ombros.
A carruagem avançou em direção ao palácio sob a brisa fria da noite.
Avery observou a paisagem passar pela janela, sentindo nascer no peito uma inquietação inexplicável.
Não tinha como prever o que estava prestes a perder.
Nem por quem seria escolhida.
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Últimos capítulos
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