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Apostasia Sanguínea

Apostasia Sanguínea

Última atualização: 2026-06-30 12:50:00
By: AnonChimp
Concluído
Idioma:  Português0+
4.1
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Sinopse

Sou um vampiro mesti?o, nascido fraco, jurado a proteger minha irm?. Ela é uma Progenitora secreta, uma deusa viva que todos querem controlar. Traídos pela família e ca?ados por hereges, perdemos tudo. Eles veem um garoto fraco e uma garota frágil, presas fáceis para seus jogos. Est?o errados. Tornarei-me um monstro para ser seu escudo.


Capítulo1

As rodas da carruagem giravam em meio à névoa como sussurros num mausoléu, cada volta aproximando Cassian Thornheart de um passado que ele nunca conhecera e de um futuro que não ousava imaginar. Do lado de fora, o campo jazia envolto na neblina de outubro, aquela bruma espessa que se agarrava à terra como se o próprio solo respirasse de forma lenta e fria. Carvalhos seculares ladeavam a estrada, seus galhos esqueléticos desenhados contra uma lua que parecia relutante em ceder sua luz. Em algum lugar distante, um corvo grasnou — um som único, agudo e definitivo, como o ponto final de uma sentença escrita com sangue.

Cassian estava recostado nas almofadas de veludo, com uma das mãos apoiada no batente da janela e a outra verificando, distraidamente, o relógio de prata que pertencera à sua mãe. Dezoito anos neste mundo, e ele já se sentia centenário. Seu pai prometera que a jornada até a Mansão Nocturne seria tranquila. Uma simples reunião com a avó, Seraphine. Sem complicações, dissera ele, embora seus olhos carregassem o peso de avisos não ditos.

Mas Cassian aprendera, nos seis anos decorridos desde a morte da mãe, a não confiar em promessas feitas por sangue-puros — mesmo, ou talvez especialmente, quando esses sangue-puros eram da família.

— Irmão, você está fazendo isso de novo.

Cassian desviou o olhar da janela. À sua frente, envolta em um vestido de um roxo fúnebre profundo que tornava sua pele pálida quase luminosa, sua irmã Dahlia o observava com olhos da cor de tempestades de inverno. Ela permanecia sentada com a imobilidade perfeita exigida das jovens de sua posição, mãos cruzadas no colo, postura impecável. Para os guardas que cavalgavam ao lado da carruagem, ou para qualquer observador casual, ela era a imagem perfeita de uma delicada donzela meio-sangue. Frágil. Decorativa. Inofensiva.

Cassian sabia que aquela era a mentira mais perigosa que existia.

— Fazendo o quê? — perguntou ele, embora já soubesse a resposta.

— Preocupando-se. — Ela inclinou a cabeça, um gesto tão leve que mal desalinhou os cachos escuros que moldavam seu rosto. — Seu cheiro muda quando você está ansioso. Torna-se metálico. Como ferro deixado por muito tempo sob a chuva.

Apesar do peso que oprimia seu peito, Cassian se viu sorrindo. Só Dahlia para descrever a ansiedade como metal oxidado.

— Talvez eu prefira a ferrugem a qualquer coisa que nos aguarde no fim desta viagem.

— A avó Seraphine não é um monstro, Cass.

— Não. Ela é algo pior. Uma matriarca que confunde cálculo com amor. — Ele voltou a olhar para a névoa. — A carta dela convidou você, Dahlia. Quanto a mim, fui mencionado quase como um detalhe esquecido: "o rapaz pode acompanhar, se assim desejar". Como se minha presença fosse opcional. Uma cortesia estendida a uma bagagem.

A expressão de Dahlia vacilou com algo que poderia ser dor, caso ela se permitisse demonstrá-la plenamente.

— Você é neto dela tanto quanto eu sou neta.

— Sou o neto meio-sangue de um genro caído em desgraça. Ela nunca perdoou o papai por conquistar o coração da mamãe, nem por diluir a linhagem Nocturne com sua herança inferior. — Os dedos de Cassian apertaram o relógio. — Você, no entanto, é diferente. Você é a filha da sua mãe. Rara. Bela. Uma mulher meio-sangue em idade de casar, em uma sociedade que valoriza muito tais atributos.

— Você faz parecer que sou gado.

— Para eles, você é. Uma matriz valiosa para qualquer família sangue-puro com a qual a vovó deseje forjar uma aliança. — As palavras tinham o gosto amargo de absinto. — Eles vão adorar você, Dahlia. Até o exato momento em que tentarem enjaulá-la.

A mão de Dahlia moveu-se para o pequeno estojo de madeira ao seu lado no assento. Ali dentro, Cassian sabia, estavam os frascos de sangue diluído — o "remédio" dela, como chamavam. A substância que mantinha sua verdadeira natureza acorrentada. Sem aquilo, ela não seria apenas uma donzela meio-sangue adequada para casamentos políticos.

Ela seria algo que o mundo vira apenas duas vezes em toda a história registrada.

Uma Progenitora.

Uma vampira que carregava o sangue puro do Primeiro — o ancião de quem toda a espécie descendia. Tais criaturas eram mitos feitos carne, capazes de poderes que faziam até os mais velhos sangue-puros parecerem crianças brincando com fogo. Poderiam caminhar sob a luz do sol sem queimar. Comandar o sangue alheio como se fosse o próprio. Dobrar mentes com um simples olhar.

E, se os textos antigos estivessem corretos, não poderiam ser mortos por nenhum meio conhecido.

— Quando tomou a última dose? — Cassian perguntou baixinho, apontando para o estojo de madeira.

— Esta manhã, antes de partirmos. — Dahlia verificou o relógio delicado preso ao corpete. — Seis horas atrás. Devo tomar outra dentro de uma hora.

— Como se sente?

— Quente. — Ela esfregou os braços por cima das mangas de veludo. — Mas isso não é incomum quando a lua se aproxima da fase cheia.

Não era a lua. Cassian sentia o odor — a mudança sutil em seu perfume, de lavanda fresca para algo mais denso. Mais sombrio. Como rosas deixadas por tempo demais ao sol, cuja doçura azedava em decomposição. O sangue dentro dela estava despertando, e as doses estavam perdendo o efeito mais rápido do que deveriam.

Precisavam encontrar o monge errante que lhes dera a fórmula sete anos antes. A figura calva e enigmática que surgira na propriedade de seu pai, entregara à jovem Dahlia um pergaminho coberto de símbolos alquímicos, dissera apenas três palavras — "Isto será suficiente" — e desaparecera na noite. O primeiro despertar de Dahlia ocorrera naquele mesmo ano, quando ela tinha oito anos. Sem as doses, ela já teria se tornado...

Um assobio agudo vindo da boleia cortou seus pensamentos como uma lâmina.

Alaric, o chefe da segurança e o homem de maior confiança de seu pai, falava urgentemente com o batedor. Mesmo através das paredes da carruagem, Cassian captou fragmentos: "— seis cavaleiros, sem cores de casa, movendo-se para interceptar —"

O pulso de Cassian acelerou.

— Alaric?

A pequena janela entre os compartimentos deslizou. O rosto marcado de Alaric apareceu, a mandíbula travada na expressão que Cassian aprendera a identificar como o prelúdio da violência iminente.

— Meu senhor. Temos companhia. Afiliação desconhecida. Podem ser bandidos, ou podem ser...

A noite explodiu.

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