A Companheira Humana do Rei Alfa
Synopsis
Clara Leal cresceu como a única humana da Alcateia Dente Negro. Embora seja filha do Alfa Marcelo Leal e carregue sangue Alfa, ela não consegue realizar a transformação e vive à margem de uma sociedade que considera os humanos fracos. Depois de receber mais uma rejeição universitária, Clara é convocada com os irmãos Lívia Leal e Samuel Leal para uma reunião diplomática no Castelo Lupino, no Canadá. Lá, o Príncipe Guilherme Pacheco reconhece nela sua companheira predestinada — e, quando o Rei Alfa Alberto Barbosa II ordena que ele a mate por ameaçar a linhagem real, Guilherme assume o trono e faz de Clara sua Rainha.
Dividida entre o vínculo predestinado, o desejo de liberdade e o sonho de construir uma vida humana independente, Clara foge para a Califórnia em busca da mãe que não vê há anos. Mas o conflito entre o Rei Alfa Guilherme e os tradicionalistas que rejeitam humanos, mulheres no poder e qualquer desafio às antigas regras logo a alcança.
Chapter1
“O destino não é uma águia; rasteja como um rato.”
– Elizabeth Bowen
Se você perguntasse aos meus pais como era meu irmão mais velho, eles diriam que ele nascera para liderar. Destemido, corajoso, o tipo de homem feito para comandar exércitos.
Se perguntasse sobre a minha irmã, eles se derreteriam ao falar de sua doçura e de seu coração altruísta.
Mas eu?
Para me descrever, meus pais só usariam uma palavra: humana.
Talvez você não ache que “humana” possa ser um insulto, mas passei a vida inteira usando essa palavra como uma marca de vergonha. Quando apareci na porta do meu pai Alfa, aos doze anos, ele contou à alcateia que eu estava ali por causa do fracasso da minha mãe humana. Fui jogada no meio da alcateia — literalmente —, mas ser a única humana entre eles me transformou em uma pária instantaneamente. Eu não conseguia correr, lutar ou assumir a forma de lobo como as outras crianças do bairro. Jamais encontraria meu companheiro predestinado nem conheceria aquele amor imediato e absoluto que unia os pares predestinados.
Eu continuava sendo filha do Alfa e, embora isso talvez tivesse me protegido dos valentões, não significava que eu pertencesse àquele lugar. O mundo dos lobisomens era radicalmente diferente do mundo humano e, para eles, a minha humanidade era uma fraqueza.
Meu pai nunca disse que tinha vergonha de mim, mas eu sentia sua decepção mesmo assim. Ela pairava no ar sempre que ele me chamava de sua filha humana ou explicava que eu era fruto de um breve caso com uma mulher humana, dezoito anos antes.
Minha madrasta, a companheira predestinada do meu pai, tentou me fazer sentir incluída. Ela era o retrato da Luna perfeita — gentil e dócil —, mas eu ainda conseguia perceber que tinha vergonha de mim. Se havia alguma prova de que a família dela não era perfeita, essa prova era a minha existência. Cada vez que olhava para mim, lembrava-se de que seu companheiro predestinado a havia traído.
Por mais que tentassem, nada disso formava uma receita para a família perfeita. Passei seis anos morando sob o teto do meu pai, dentro da alcateia dele e do mundo dos lobisomens, mas já aceitara que jamais me encaixaria ali.
Ou assim eu pensava.
Apesar de ter planejado ir para uma faculdade muito, muito longe da alcateia que não tinha lugar para mim, minha vida estava prestes a mudar por completo. Algo — ou, tecnicamente, alguém — estava prestes a garantir que houvesse espaço de sobra para aquela humana comum e insignificante no mundo dos lobisomens.
Prezada Clara Leal,
Depois de analisarmos cuidadosamente sua candidatura, lamentamos informar que, neste momento, não podemos oferecer a você uma vaga na Universidade da Flórida. Agradecemos o tempo e o esforço dedicados à sua candidatura, mas, infelizmente, o grande número de candidatos deste ano tornou nossa decisão especialmente difícil, e dispomos de um número limitado de vagas em cada turma.
Temos certeza de que você realizará grandes feitos em seus estudos e desejamos sucesso em sua trajetória acadêmica!
Atenciosamente,
Diretor de Admissões
Universidade da Flórida
Li o e-mail de rejeição pelo menos cinco vezes, os olhos correndo pela tela em busca de alguma coisa que eu pudesse ter deixado passar. Infelizmente, não havia mensagem oculta nenhuma. Era apenas mais uma rejeição genérica de outra faculdade que não me queria. Meu último ano do ensino médio estava chegando ao fim e, embora tivesse me candidatado a uma lista interminável de faculdades, até então só recebera três rejeições e entrara na lista de espera de uma.
A maioria das instituições para as quais me candidatei eram universidades estaduais com um desempenho acadêmico razoável, mas, para ser sincera, tudo o que eu queria era encontrar uma faculdade bem distante. Longe o bastante para eu ter uma desculpa e não precisar voltar para casa nos fins de semana ou na maioria dos feriados.
Como eu morava no Washington frio e chuvoso, o clima ensolarado — e distante — da Flórida teria sido perfeito. Só que, pelo visto, isso não ia acontecer.
— Clara!
Minha sessão de autopiedade foi interrompida pelo grito da minha irmã, Lívia. Mal tive tempo de fechar a tela do Gmail antes que ela invadisse meu quarto sem sequer bater.
— Clara, estou chamando você há cinco minutos — suspirou, apoiando-se no batente da porta. — Você estava assistindo a outro reality show ridículo ou simplesmente resolveu ignorar a minha voz?
Embora fôssemos meias-irmãs, Lívia e eu quase não parecíamos parentes. Ela era alta, tinha a pele clara e longos cabelos loiros que nunca pareciam arrepiados ou fora do lugar. Tanto ela quanto meu irmão tinham herdado os olhos azuis e brilhantes do meu pai. Os olhos eram seu melhor atributo e pareciam estar sempre tentando enxergar o que havia por baixo da superfície.
— Desculpa, não estava tentando ignorar você, Li — respondi. — O que foi?
Os olhos azuis e penetrantes se estreitaram, mas ela pareceu aceitar minhas desculpas.
— O papai quer falar com a gente. Tem uma reunião importante hoje à noite na casa da alcateia. Vai estar cheio de gente.
Franzi a testa. Reuniões da alcateia não eram novidade, mas normalmente eu não precisava comparecer. Como a única humana residente da Alcateia Dente Negro, eu não tinha grande participação nos assuntos da alcateia. Não conseguia realizar a transformação, o que significava que não podia participar das patrulhas nem defender o território.
— Por que o papai quer falar comigo? — perguntei.
— Não sei — Lívia respondeu, dando de ombros. — Ele só mandou que eu viesse buscar você. Tenho certeza de que deve haver um bom motivo. O papai não levaria você se não fosse necessário. Vamos.
Lívia não perdeu mais tempo esperando por mim, e eu a observei sair do quarto com aquele jeito confiante de desfilar pelo mundo.
Nem a filha predileta sabe por que estou sendo convocada, pensei. Então isso deve ser importante.
Segui Lívia para fora do quarto e descemos a escada em silêncio. Com o pé-direito alto e o piso de madeira, nossa casa era uma das maiores da alcateia — um privilégio de pertencer à família do Alfa. Fotografias das conquistas de Lívia e do meu irmão, Samuel, cobriam as paredes como troféus: Lívia bebê, Samuel em seu primeiro jogo de futebol da alcateia, Lívia no baile de formatura com as amigas.
Como eu esperava, papai, Samuel e Helena estavam esperando na sala de estar. Papai ocupava a poltrona reclinável como se fosse um trono, com Helena sentada em seu colo, enquanto Samuel permanecia de pé, sem jeito, ao lado da lareira.
— Ah, meninas, aí estão vocês — disse papai. Sua voz poderosa ecoou pela sala. — Temos uma reunião da alcateia hoje à noite e precisaremos das duas lá.
Mesmo já tendo passado dos quarenta, meu pai não aparentava ter um dia a mais de trinta anos. Tinha os mesmos cabelos claros e olhos azuis de Lívia, e o maxilar forte, junto com a presença intimidadora, fazia com que ele parecesse exatamente o lobo Alfa que era.
Meu meio-irmão mais velho, Samuel, era tão alto quanto papai, mas herdara os cabelos castanho-avermelhados da mãe, Helena. Helena — ou Luna Helena, para quem não fosse sua enteada — era a companheira predestinada do meu pai e a mãe biológica de Samuel e Lívia. Era a última peça do retrato de família perfeita que papai havia construído.
— Por que a Clara vai à reunião hoje à noite? — perguntou Samuel, olhando para mim. Não havia insulto em sua voz. Assim como eu, ele sabia que raramente precisavam de mim — ou me queriam — nas reuniões da alcateia.
— Vamos conversar sobre isso na reunião — disse papai, levantando-se com Helena. — Todos estão prontos? Vai começar em breve. É melhor irmos.
Todos assentimos.
— Ah, Clara, querida — chamou Helena, ao lado do meu pai. — Tem certeza de que não quer trocar de roupa? Esse conjunto talvez seja casual demais para uma reunião da alcateia.
Olhei para minha calça jeans e minha camiseta preta lisa. Não era exatamente uma produção glamorosa, mas ninguém mais estava arrumado. Samuel vestia camiseta e bermuda, e Lívia usava uma saia jeans com algum tipo de blusa com babados.
— Se não houver problema, vou com isso mesmo — respondi.
Helena assentiu, mas vi seus olhos percorrerem minha roupa mais uma vez.
Não é como se eu fosse o centro das atenções aqui, pensei. Os anciãos estarão ocupados demais com papai, os guerreiros da alcateia vão ficar de olhos grudados na bunda da Lívia e as garotas solteiras estarão flertando com meu irmão.
Se tivesse sorte, eu passaria despercebida. E, sinceramente, era exatamente onde queria ficar em eventos daquele tipo.
— Chega de enrolação. Vamos — resmungou papai, pegando a mão de Helena.
Ele saiu na frente, e Samuel, Lívia e eu fomos atrás, como filhotes — sem trocadilho. Caminhamos em silêncio, e aproveitei para apreciar a paisagem.
Nossa alcateia vivia em uma comunidade cercada pela floresta, o que fazia com que a maioria dos lugares, como a casa da alcateia, ainda pudesse ser alcançada a pé. As casas das famílias se alinhavam de um lado da rua, mas, se você continuasse andando, acabaria encontrando um mercado administrado pela alcateia e uma enfermaria. Os membros podiam sair quando quisessem, mas, com uma estrutura dessas, quase nunca havia necessidade.
E, quando havia, ainda precisavam prestar contas aos guardas que protegiam nossas fronteiras. Eles não impediam ninguém de sair, mas tornavam muito mais difícil escapar sem ser visto.
A pequena área residencial era apenas uma parte do território da alcateia. A maior parte se estendia por bosques onde os lobos podiam correr, brincar e realizar a transformação sempre que quisessem.
Para os lobisomens, era o arranjo ideal.
Como humana que jamais se descreveria como “aventureira”, morar a uma hora da cidade mais próxima não era exatamente um ponto positivo. Eu não era uma prisioneira, de forma alguma, mas havia momentos em que viver no Território do Dente Negro me fazia sentir encurralada.
Com os guardas vigiando cada centímetro da propriedade, era difícil simplesmente entrar e sair quando bem entendesse. E, como eu não era uma lobisomem, não podia realizar a transformação e correr pela floresta sobre quatro patas, como meus irmãos faziam sempre que queriam tomar um pouco de ar fresco.
Quisesse ou não, eu era uma humana vivendo na toca dos lobos.
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