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A Luna da Alcateia

A Luna da Alcateia

Last Updated: 2026-08-14 08:26:38
Language:  Português4+
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Synopsis

Ariadne Trevissane é uma pária no seu próprio clã. Considerada uma 'ómega sem lobo', ela sobrevive à sombra da alcateia de Refúgio Cinzento, suportando humilhações para esconder uma verdade que poderia destruir o mundo dos lobisomens. Mas quando Luciano Carvalho, o temível Alfa Supremo da Aliança, chega para investigar a decadência da linhagem local, o segredo de Ariadne começa a pulsar com uma força incontrolável.


Entre jogos de poder, traições de sangue e a sombra de um império caído, Ariadne descobre que não é apenas uma serva esquecida, mas a última herdeira da linhagem da tempestade. Num mundo onde os fortes devoram os fracos, ela terá de decidir se continua a esconder a sua natureza ou se liberta o monstro que habita no seu interior para reclamar o que lhe foi roubado.


---


Chapter1

Ariadne Trevissane detestava parecer vulnerável diante dos outros.

Em Refúgio Cinzento, a fraqueza não era algo que despertasse compaixão; era o pretexto perfeito para ser esmagado. Por isso, quando a água gelada deixou os seus dedos num tom escarlate e o detergente começou a arder nas feridas antigas, ela apenas virou o prato e continuou a esfregar.

A cozinha era um caos de ruídos. Criadas corriam com cestos de pão e tigelas de caldo, enquanto a governanta, postada à porta, não parava de berrar ordens.

— Rápido! Hoje não é um dia qualquer — gritou a mulher. — A escolta do Alfa Supremo já atravessou a Ponte Sul. Até amanhã, todos os talheres de prata do edifício principal têm de estar a brilhar!

— Já os limpámos todos ontem à noite — murmurou alguém, em tom de queixa.

A governanta virou-se de imediato, com os olhos em brasa.

— Pois então limpem-nos outra vez. Luciano Carvalho não é um convidado qualquer. Se alguém cometer um erro, vai dormir com os cavalos no estábulo.

Ariadne manteve-se em silêncio. Sabia bem a razão de tanto nervosismo.

Por fora, Refúgio Cinzento parecia uma alcateia respeitável, mas ela estava ali há dez anos e conhecia a podridão que se escondia sob a fachada. As patrulhas andavam desleixadas, as contas dos celeiros não batiam e as notícias das fronteiras eram abafadas. Agora que o Alfa Supremo, Luciano Carvalho, vinha para uma inspeção oficial, era natural que Edgar Costa estivesse aterrorizado.

E quem tem medo procura sempre alguém mais fraco para descarregar a própria frustração. Ariadne era, sem dúvida, o elo mais baixo daquela casa.

— Tu, Ariadne — a governanta apontou para ela. — Esfrega esses pratos de prata novamente. Ainda vejo marcas de água nos rebordos.

Ariadne olhou para o prato nas suas mãos. A prata estava tão límpida que reflectia o seu próprio rosto, mas não se deu ao trabalho de contestar.

— Sim, senhora.

Mergulhou o prato na água. Na sua mente, a voz de Mara soltou um riso gélido.

— Ela é cega, por acaso?

"Ela não quer saber se o prato tem manchas", pensou Ariadne, mantendo uma calma absoluta. "Ela só quer ver-me baixar a cabeça."

Mara silenciou-se por um instante, mas logo a sua fúria regressou, ainda mais densa.

— Não devias engolir isto tudo calada!

A água gelada feria-lhe as mãos, mas Ariadne não interrompeu os movimentos.

"Não é o momento de chamar a atenção."

Todos diziam que Ariadne era uma Ómega sem lobo, sinónimo de inutilidade e inferioridade. Os resultados dos testes de sangue em Refúgio Cinzento diziam o mesmo há dez anos, e todos a desprezavam por isso. Mas Mara estava sempre lá. Escondida nas profundezas do seu peito, como uma chama abafada sob pedras pesadas, ela era um segredo que ninguém podia descobrir. O que Ariadne ocultava ia muito além da presença de Mara.

Um riso vindo da porta lateral interrompeu o burburinho da cozinha. As criadas empertigaram-se de imediato, e até a governanta assumiu uma postura servil. Gabriela Costa e Sofia Costa entraram no recinto.

Gabriela, sobrinha de Edgar, agia como se fosse a princesa da casa, caminhando com um esgar de nojo a cada passo. Sofia, ao seu lado, exibia um sorriso mais suave, embora o seu olhar fosse consideravelmente mais cortante.

— O cheiro aqui é insuportável — disse Gabriela, tapando o nariz. — Nem sei como é que esta gente aguenta.

— Estão habituadas — retorquiu Sofia, com indiferença.

As mãos de Ariadne paralisaram por um segundo antes de retomarem a limpeza. Gabriela avistou-a e os seus olhos brilharam, como se tivesse finalmente encontrado algo para se entreter.

— Ariadne.

Ariadne pousou o prato e baixou o olhar.

— Menina Gabriela.

— Já soubeste? Luciano Carvalho está a caminho — disse Gabriela, arrastando as palavras com vaidade. — O Alfa Supremo. O Alfa mais jovem e poderoso de toda a Aliança das Dezassete Alcateias.

Ao redor, várias criadas suspiraram com admiração. Sofia não demonstrava a mesma excitação infantil de Gabriela, mas a sua aparência impecável deixava claro que também se tinha preparado para a chegada do convidado.

Gabriela fixou o olhar em Ariadne.

— Por que é que não tens reacção nenhuma? Ah, esqueci-me. És uma Ómega sem lobo. Provavelmente nem entendes o que um Alfa poderoso significa para uma mulher.

Alguns risos abafados ecoaram pela cozinha. Ariadne permaneceu de cabeça baixa, o rosto como uma máscara de pedra.

— Sou apenas uma serva, menina Gabriela.

— Isso é verdade — riu-se a outra, pegando num prato de prata já limpo e, sem hesitar, atirando-o de volta para a bacia de água suja. — Então trata de limpar tudo outra vez. O Alfa Supremo não pode usar nada que tenha sido manchado pelo teu toque.

Mara rugiu dentro dela.

— Deixa-me sair!

"Não."

Ariadne rejeitou o pedido de imediato e voltou a inclinar-se sobre o tanque.

— Ela trata-te como um cão.

"Ela trata todos os que estão abaixo dela como cães", respondeu Ariadne, pegando novamente no prato. "Queres que eu a morda? E depois? Pensaste nas consequências?"

A raiva de Mara era como um vento de baixa pressão, revolvendo-se no seu tórax. Ariadne pressionou a borda do prato com a ponta dos dedos, forçando-se a manter a mão firme. Ela não era desprovida de amor-próprio; apenas sabia que o orgulho não lhe garantia a sobrevivência.

O olhar de Sofia deteve-se em Ariadne por alguns instantes. Ao contrário de Gabriela, ela não procurava apenas diversão momentânea; era perita em cálculos e segundas intenções. Ariadne sempre soube que Sofia era muito mais perigosa que a prima.

— Não a atrabalhes mais — disse Sofia, com voz melíflua. — Vamos precisar de braços para o banquete.

Gabriela bufou.

— Tens sempre o coração demasiado mole.

Ariadne não levantou a cabeça. Sabia que não era bondade; Sofia apenas sabia representar melhor o seu papel em público.

Assim que as duas saíram, a cozinha mergulhou novamente no frenesim. Ninguém intercedeu por Ariadne, nem haveria razão para tal. Ali, todos sabiam que uma palavra errada bastava para serem os próximos na linha de fogo.

Quando Ariadne terminou o último prato, a ferida nas costas da mão voltou a sangrar. Limpou o sangue na manga da túnica.

A luz lá fora esmorecia. Olhou pela pequena janela da cozinha e viu as nuvens baixas a rolarem vindas de noroeste. Sentia a chuva a aproximar-se.

— Vai chover — murmurou a voz de Mara, agora mais suave.

— Eu sei.

Ariadne收回视线。 A governanta voltou a distribuir tarefas, abafando as queixas com olhares fulminantes. Todos tinham obrigações, mas as de Ariadne eram, como sempre, as mais pesadas e sujas. A mulher apontou-lhe o dedo, com olhos carregados de desprezo.

— Ariadne, antes do banquete ficas responsável pela limpeza da cozinha, pela reposição dos talheres e pelos castiçais do corredor leste. Não te atrevas a preguiçar!

— Sim, senhora — respondeu ela, pegando num cesto de panos sujos e dirigindo-se ao corredor dos fundos, sem proferir uma única queixa.

Ariadne ouviu alguém dizer nas suas costas:

— Ela nem sequer tem sangue nas veias.

— E que remédio tem ela? — respondeu outra voz, em tom baixo. — Sem lobo, nem sequer fez o Juramento de Alcateia. O Alfa Edgar já foi misericordioso o suficiente ao deixá-la viver.

Ariadne não abrandou o passo. Diziam que a Alcateia de Refúgio Cinzento a tinha acolhido, que Edgar lhe tinha dado um lar, que ela devia estar grata pela sua benevolência. Mas quem vive encerrado numa cave também tem um lar; quem está preso por correntes também continua vivo.

Sobreviver não era o mesmo que ser salvo.

— Um dia — sussurrou Mara —, eles vão saber quem é que andaram a pisar.

Ariadne baixou os olhos.

— Até lá, é melhor que não saibam de nada.

Entrou no corredor traseiro, sentindo o vento frio infiltrar-se pelas fendas das paredes. As nuvens de tempestade estavam cada vez mais baixas. De repente, desejou que a chuva caísse depressa.

O som da água a bater no telhado costumava abafar muita coisa: o choro, as mentiras e os segredos que não podiam ser ditos.

Contudo, Mara advertiu-a mentalmente:

— Quando a chuva chega, as coisas escondidas também são mais facilmente descobertas.

Ariadne não respondeu. Sabia que Mara tinha razão.

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