Apenas sua, Papais
Synopsis
Traída pelo marido e encurralada por forças inimigas, Elena Hart, uma brilhante executiva de tecnologia, vê-se sem saída. Para sobreviver e proteger seu irmão Noah, ela é forçada a buscar refúgio com os poderosos e enigmáticos irmãos Blackwell. Enquanto usa suas habilidades técnicas para recuperar o controle de sua vida e de sua empresa, Asteria Tech, Elena descobre que está no centro de uma disputa sobrenatural que vai muito além do mundo dos negócios. Em um jogo perigoso de poder, sedução e segredos de sangue, ela terá que decidir em quem confiar quando todos ao seu redor guardam segredos mortais.
Chapter1
Elena Hart estava casada com Victor Hale havia sete anos, e, durante seis deles, dissera a si mesma que era feliz.
Essa era a mentira que ela repetia diante do espelho todas as manhãs, enquanto prendia o cabelo e assumia a postura de uma mulher que tinha tudo. Uma empresa de sucesso. Um marido atraente. Uma cobertura com vista para o rio. O tipo de vida que fazia as outras mulheres sorrirem com inveja nos jantares de caridade, cochichando por trás de suas taças de champanhe.
Mas Elena sabia de algo que elas não sabiam.
Nos últimos doze meses, no entanto, algo parecia fora do lugar.
Não era nada óbvio. Eram centenas de pequenos detalhes. Victor chegando mais tarde em casa. O celular sempre virado para baixo na mesa. Um perfume novo que ela não havia comprado para ele. O interesse repentino e obsessivo pela estrutura financeira da Asteria Tech — especificamente pelas partes que levavam o nome dela.
Ela tentava se convencer de que era apenas paranoia. Dizia a si mesma que sete anos de casamento mereciam confiança. Que estava exausta com o projeto Escudo Riverside, sufocada pelos prazos, procurando problemas onde não existia nenhum.
Mas, na noite anterior, ela encontrara um recibo no bolso do paletó dele. Um restaurante do qual nunca ouvira falar. Duas taças de vinho. Um prato principal. Uma sobremesa.
Para duas pessoas.
O recibo era da terça-feira anterior. A mesma terça-feira em que Victor lhe enviara uma mensagem às nove da noite dizendo que ainda estava preso em uma reunião de diretoria.
Elena ficara parada no closet, com o papel entre os dedos, sentindo algo se romper no peito. Não foi dor. Ainda não. Foi algo mais frio. Algo que reconheceu a forma do que estava por vir e decidiu se preparar em vez de desmoronar.
Ela não chorou. Não o confrontou. Apenas tirou uma foto do recibo com o celular, colocou-o de volta exatamente onde o encontrara e deitou-se ao lado dele como se nada tivesse acontecido.
Naquela noite, ela saiu mais cedo da reunião de investimentos. Não por cansaço. Nem porque os números não batiam. Mas porque havia checado a agenda de Victor no iPad compartilhado da família — aquele ao qual ele esquecera que ela tinha acesso — e vira um bloco de horário marcado como "Compromisso Particular" na cobertura deles, às oito da noite.
Não havia endereço associado. Nenhum nome de contato. Apenas aquelas duas palavras.
Compromisso Particular.
Elena dirigiu de volta para casa. Não ligou avisando, não mandou mensagem. Estacionou na garagem, pegou o elevador privativo até o trigésimo segundo andar e seguiu pelo corredor em direção à porta de seu próprio apartamento. O som de seus saltos estalava contra o mármore, acompanhando o ritmo acelerado de seu coração, que ela se recusava a decifrar.
Abriu a porta sem fazer barulho. Não por estar se esgueirando, mas porque queria ouvir o que quer que estivesse acontecendo lá dentro.
A cobertura estava na penumbra. Havia apenas uma luminária acesa na sala. O ar trazia um aroma de cera de vela e um perfume floral. Não eram as velas dela. Ela nunca acendia velas no quarto porque Victor reclamava que lhe davam dor de cabeça.
Foi então que ela ouviu.
Uma risada feminina. Baixa, íntima, familiar.
Sem que sua mente pudesse contê-la, Elena seguiu pelo corredor. A porta da suíte principal estava entreaberta. Um feixe de luz dourada e quente cortava o chão escuro.
Ela empurrou a porta.
E lá estava Victor.
E lá estava Marissa.
Marissa Cole, sua assistente pessoal. A jovem que Elena contratara havia dois anos, recém-saída da faculdade de administração. A mesma a quem dera mentoria, promovera e confiara listas de clientes, atas de reuniões e os acessos de sua agenda particular.
Marissa usava o roupão de seda de Elena. Aquele cor de pêssego. O que a mãe de Elena lhe dera antes de falecer.
Victor estava sentado na beirada da cama, com a camisa desabotoada e o cabelo desalinhado, olhando para Marissa como se ela fosse a única mulher no mundo.
No início, nenhum dos dois notou a presença de Elena.
Marissa riu de novo. Aquele som baixo, soprado, que Elena já ouvira centenas de vezes no escritório e que sempre atribuíra a uma timidez nervosa. Ela ria de alguma coisa que Victor acabara de dizer, algo sobre a reunião de diretoria da próxima quinta-feira, comentando como Elena jamais perceberia, ocupada demais com o trabalho.
Elena não gritou.
Não chorou.
Não bateu a porta.
Apenas pegou o celular, abriu a câmera e começou a gravar.
Victor ouviu o clique do obturador da câmera. Virou a cabeça abruptamente em direção à porta. Por um segundo — apenas um segundo —, sua expressão ficou vazia. Surpresa genuína.
Logo em seguida, a máscara voltou a cair sobre seu rosto.
— Elena — disse ele, pronunciando o nome dela como se a estivesse cumprimentando em um almoço de negócios, e não como se tivesse sido flagrado na cama com a assistente. — Você chegou cedo.
O rosto de Marissa empalideceu. Ela desceu da cama às pressas, segurando o roupão contra o corpo, com os olhos arregalados e marejados. Abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Elena continuou gravando.
— Acho que você deveria dizer alguma coisa — disse Elena. A própria firmeza de sua voz a surpreendeu; estava calma, quase amigável. — Fale para a câmera. Assim não haverá dúvidas sobre o que estou presenciando.
Victor se levantou. Não se apressou para se cobrir nem demonstrou vergonha. Caminhou devagar na direção dela enquanto abotoava a camisa. Ao chegar à porta, olhou para o celular com uma expressão que quase parecia diversão.
— Abaixe isso, Elena.
— Não.
— Abaixe o telefone e podemos conversar sobre isso como adultos.
— Eu estou conversando. Você é quem não está dizendo nada.
Marissa começou a chorar. Eram soluços feios, sufocados. Ela recuou até bater contra a parede, balançando a cabeça e repetindo "desculpe, desculpe, desculpe" como um disco riscado.
Elena apontou a câmera para a assistente.
— Marissa. Ele lhe prometeu alguma coisa? Uma promoção? Dinheiro? Um cargo na Asteria?
Marissa apenas chorou com mais força.
Victor tentou pegar o aparelho. Elena deu um passo para trás. Seu salto prendeu no tapete e ela cambaleou, mas não soltou o celular. Jamais soltaria.
— Não toque em mim — disse ela.
— Elena...
— Eu disse para não tocar em mim.
Ele parou. Ergueu as mãos naquele gesto apaziguador que costumava usar com os investidores. Calmo. Sensato. A voz de um homem que nunca cometera um erro na vida.
— Não vamos discutir isso hoje à noite — disse ele. — Você está descontrolada. Tem trabalhado demais. O projeto Riverside está acabando com você. Conversamos amanhã, depois que você descansar um pouco.
Elena riu.
Não foi uma risada alegre. Foi o tipo de riso que vem do fundo de um poço. Sombrio. Vazio. Real.
— Você vai mesmo tentar me fazer de louca agora? — perguntou ela. — Eu flagrei vocês na câmera. Vi a sua assistente usando o roupão da minha mãe. E você quer me dizer que estou cansada e que tudo não passa de um mal-entendido?
O rosto de Victor endureceu. A máscara de bom moço se desfez, revelando por trás algo que ela só tinha visto de relance em reuniões de diretoria: um aspecto frio, paciente e ávido.
— Tudo bem — disse ele. — Quer resolver isso agora? Então vamos resolver agora.
Ele voltou para a cama, pegou uma pasta na mesa de cabeceira e a jogou no chão, aos pés dela. O papel colidiu com um estalo seco contra o mármore.
— Leia.
Elena não olhou para baixo.
— O que é isso?
— O seu futuro.
Ela olhou.
Era uma pasta grossa. Documentos jurídicos. Muitos deles. Dava para ver o selo timbrado do escritório que cuidara do acordo pré-nupcial deles. Aquele que ela assinara sete anos atrás porque Victor dissera que era mera formalidade, só uma exigência do pai dele, um pedaço de papel que nunca faria diferença porque eles ficariam juntos para sempre.
— Você precisa entender uma coisa — disse Victor. — Você não pode se divorciar de mim. O acordo pré-nupcial é blindado. Qualquer tentativa de pedir a separação fará com que você perca tudo. A Asteria. A cobertura. Cada centavo que construímos juntos.
— Construímos juntos? — A voz de Elena subiu de tom. — Eu criei a Asteria. Comecei a empresa na garagem dos meus pais. Você só entrou três anos depois, com os seus contatos, o seu dinheiro e o seu...
— E sem o meu dinheiro, a sua empresa teria morrido naquela garagem — interrompeu ele. — Você precisava de mim, Elena. E ainda precisa. Os investidores não confiam em você sozinha. Eles confiam no pacote completo. No marido. Na unidade familiar estável. Se você destruir isso, destrói a Asteria.
Marissa tinha parado de chorar. Agora observava os dois, com os olhos indo de um para o outro como se assistisse a uma partida de tênis. O rosto dela estava manchado, mas havia algo mais ali. Algo que parecia puro cálculo.
Elena percebeu. E guardou a informação para usar depois.
— Você transferiu ações — disse Elena lentamente, com os olhos fixos nos papéis no chão. — Tirou ações do meu nome.
— Do patrimônio comum do casal — corrigiu Victor. — Para fins fiscais. Tudo perfeitamente legal. Você assinou todas as autorizações. Tenho a sua assinatura em catorze documentos diferentes.
— Sob falsos pretextos.
— Sob estratégias de otimização fiscal. O termo jurídico pouco importa. O relevante é que as ações estão no meu fundo fiduciário. Não pertencem mais a você. As patentes principais — as únicas que dão valor à Asteria — pertencem a uma holding que eu controlo. Os contratos de aluguel dos data centers, as prioridades de financiamento, os contratos essenciais? Está tudo atrelado às minhas empresas de fachada.
Elena sentiu o quarto girar.
Ela passara dez anos construindo a Asteria. Dez anos de noites em claro. Dez anos correndo atrás de capital de risco, negociando parcerias, lutando contra concorrentes que queriam esmagá-la. Começara do nada para erguer tudo aquilo. Criara empregos. Gerara riqueza. Moldara um futuro.
E Victor tinha roubado tudo, pedaço por pedaço, enquanto ela dormia ao lado dele, enquanto preparava o jantar, enquanto tentava se convencer de que o único problema no casamento era a sua própria paranoia.
— Você é um monstro — disse ela.
— Sou um homem de negócios — respondeu ele. — E estou lhe oferecendo uma saída. Fique. Faça o papel de esposa. Sorria nos eventos beneficentes. Mantenha os investidores satisfeitos. E eu deixo você manter o cargo de CEO. Você continuará no comando da empresa. Só estará... administrando-a. Para mim.
— E se eu recusar?
Ele olhou para ela como se encarasse uma criança fazendo uma pergunta tola.
— Se recusar, eu tomo tudo. A empresa. O dinheiro. A casa. E farei questão de que todos saibam que você destruiu nosso casamento. Que estava instável. Que não aguentou a pressão. Eu tenho prontuários médicos, Elena. Notas de três terapeutas diferentes dispostos a testemunhar sobre a sua instabilidade emocional.
— Eu nunca fiz terapia.
— A sua assinatura está nas fichas de consentimento. Eles têm registros detalhados da sua depressão imaginária. Da sua ansiedade inventada. Dos colapsos nervosos que você nunca teve.
Ele sorriu.
Era o mesmo sorriso pelo qual ela se apaixonara. Aquele sorriso torto, com jeito de garoto, que a fizera acreditar que podia confiar nele. Que a fizera crer que não estava sozinha no mundo.
Era exatamente o mesmo sorriso.
Mas agora ela via as presas por trás dele.
Marissa se moveu em direção à porta, ainda segurando o roupão contra o corpo.
— Acho melhor eu ir — sussurrou ela.
— Não — disse Victor. — Você fica. A Elena e eu vamos resolver isso. E você agora faz parte do pacote. Minha assistente. Minha... parceira. A Elena vai aprender a aceitar, não vai, Elena?
Elena olhou para Marissa. Para o rosto manchado de lágrimas. Para a mulher que se sentara à sua frente em tantas reuniões, que fizera anotações com aquela caligrafia caprichada, que lhe trouxera café todas as manhãs e sorrira como se fossem amigas.
— Você sabia — disse Elena. — Sabia o que ele estava fazendo. Os contratos. O fundo. As transferências. Você sabia de tudo.
Marissa baixou os olhos.
— Sinto muito — repetiu ela. Mas não havia remorso em sua voz. Havia apenas medo. Medo do que Elena pudesse fazer.
— Você não sente muito — retrucou Elena. — Você está com medo. Existe uma diferença.
Ela se voltou para Victor.
— O que você quer?
— Já lhe disse. Quero manter o casamento. Em público. Pelo tempo que for necessário.
— E em particular?
Ele deu de ombros.
— Você fica com a sua ala da cobertura, eu fico com a minha. A Marissa continua no cargo dela. Você a trata com a mesma cortesia profissional de sempre. Ninguém fala nada. Ninguém muda nada. E a empresa segue funcionando como sempre funcionou.
— Funcionando como sempre funcionou — repetiu Elena, devagar. — Com você no controle de todo o patrimônio.
— Com nós dois controlando o patrimônio juntos. Dá no mesmo, Elena. Sou seu marido. É meu dever proteger os seus interesses.
— Você passou um ano me roubando.
— Passei um ano garantindo o nosso futuro.
A campainha tocou.
Marissa deu um sobressalto. O rosto de Victor se contraiu com irritação. Elena olhou em direção ao corredor, para a porta de entrada, encarando aquela pequena interrupção que surgia no meio do seu pior pesadelo.
— Está esperando alguém? — perguntou Victor.
Elena não respondeu. Manteve os olhos fixos na pasta caída no chão. No acordo pré-nupcial. Na lista de ações, fundos fiduciários e empresas de fachada.
Em seguida, pegou o celular e enviou o vídeo para Noah.
Seu irmão. A única pessoa no mundo que nunca tinha mentido para ela.
O aparelho vibrou quase na mesma hora. Noah não mandou mensagem. Ligou de volta.
Elena silenciou a chamada e digitou rapidamente: Agora não. Falo depois. Estou bem.
Não estava nada bem. Mas também não estava destruída.
Victor a observava.
— Quem era?
— Ninguém.
Ele não acreditou. Dava para ver pela forma como a mandíbula dele se contraiu. Mas preferiu não insistir. Era inteligente demais para forçar a barra naquela noite.
Afinal, já tinha as ações. Tinha os contratos. Achava que a tinha encurralado.
— Tudo bem — disse ela. — Quer conversar amanhã? Conversaremos amanhã. Mas hoje vou dormir no quarto de hóspedes.
Victor assentiu, como se já esperasse por aquilo.
— É justo.
— Marissa — chamou Elena, sem sequer olhar para ela. — Tire o meu roupão. Deixe-o no banheiro. E não apareça no escritório amanhã. Preciso de tempo para digerir tudo isso.
Marissa abriu a boca para falar, mas Victor a interrompeu:
— Ela vai estar lá. Tudo continua igual. Esse é o acordo.
— Eu não concordei com acordo nenhum.
— E também não disse não.
Elena olhou para ele. Encarou-o de verdade. O homem com quem se casara. O homem que amara. Aquele que tinha esperado sete anos para roubar tudo o que ela havia construído.
Ela não estava chorando.
Não tinha derramado uma única lágrima.
E aquilo a assustava mais do que qualquer outra coisa.
— Saiam — disse ela em voz baixa. — Os dois. Saiam do meu quarto.
Victor passou por ela. Parou perto da porta, a uma distância que permitia a ela sentir o perfume dele. A fragrância nova, aquela que ela tinha notado meses atrás.
— Amanhã — disse ele —, vamos dar um jeito de fazer as coisas funcionarem. Os investidores precisam nos ver juntos na gala da próxima semana. Você vai usar o vestido azul. Aquele que fica bem nas fotos. Vamos andar de mãos dadas, sorrir para as câmeras. E depois voltaremos para casa, cada um para o seu quarto.
— E se eu me recusar?
Ele se aproximou. A boca ficou a poucos centímetros do ouvido dela.
— Se recusar, eu destruo você.
Ele saiu do quarto. Marissa o seguiu. A porta se fechou com um clique suave.
Elena ficou parada sozinha no meio do quarto, cercada pelos fantasmas do seu casamento fracassado, ainda segurando o celular na mão.
Olhou para la pasta que Victor tinha jogado. Juntou os papéis do chão e começou a ler.
A primeira página listava o fundo fiduciário que detinha suas ações. O administrador era uma empresa chamada Stonebridge Advisors. Ela nunca tinha ouvido falar dela.
A segunda página trazia as patentes. Todas elas. Cada uma das patentes que faziam a Asteria Tech valer bilhões. Tinham sido transferidas para uma holding nas Ilhas Cayman. O nome de Victor constava nos documentos. O dela também.
Ela tinha assinado aqueles papéis. Um por um, ao longo do último ano. Documentos de otimização fiscal, acordos de reestruturação. "Só precisamos da sua assinatura, Elena. Procedimento padrão. Não há com o que se preocupar."
Ela tinha confiado nele.
Essa era a pior parte. Tinha confiado plenamente no marido.
Elena sentou-se na borda da cama. A mesma cama onde flagrara Victor e Marissa. Os lençóis ainda guardavam o calor dos dois, e o perfume desconhecido impregnava os travesseiros.
Abriu o celular. O vídeo continuava ali. Assistiu à gravação de novo. O rosto de Victor. As lágrimas de Marissa. O roupão. O sorriso.
Provas.
Ela tinha provas.
Mas provas não adiantavam nada se não pudesse usá-las. E ela não conseguiria fazer uso de nada se Victor já tivesse bloqueado seu acesso a tudo o que importava.
O celular vibrou. Era uma mensagem de Noah.
Estou indo para aí.
Ela respondeu: Não. Hoje não. Preciso pensar.
Noah: Eu percebi pela sua voz. Aconteceu alguma coisa.
Elena: Amanhã. Eu te ligo amanhã. Prometo.
Noah: Você sempre promete. Estou indo de qualquer jeito.
Ela desligou o aparelho.
No banheiro, encontrou o roupão pêssego amassado no chão. Recolheu a peça, cujo tecido ainda conservava o calor do corpo de Marissa.
Elena o dobrou devagar, com cuidado. Da forma como sua mãe lhe ensinara.
Em seguida, jogou-o na lata de lixo.
Encarou o próprio reflexo no espelho do banheiro. O rosto estava pálido, os olhos secos. O cabelo continuava impecável, do mesmo jeito que arrumara para a reunião com os investidores.
Parecia uma mulher que tinha o mundo aos seus pés.
Mas não tinha absolutamente nada.
A campainha tocou mais uma vez.
Pensou que pudesse ser Noah. Ou Victor. Ou talvez Marissa voltando para implorar perdão.
Mas, quando abriu a porta, não encontrou ninguém no corredor.
Apenas um envelope pardo sobre o capacho, sem remetente.
Ela o recolheu. Dentro, havia uma única folha de papel.
Era a mesma lista de ações que Victor lhe mostrara, mas aquela versão trazia um detalhe inédito.
No rodapé da página, com uma caligrafia que não pertencia a Victor, alguém tinha escrito:
ME LIGUE ANTES DA REUNIÃO DO CONSELHO AMANHÃ. ELES VÃO VOTAR PARA DESTITUIR VOCÊ.
O número abaixo é seguro. Use-o.
Elena encarou o bilhete.
Não fazia ideia de quem o deixara ali.
Não sabia se era uma armadilha ou um bote de salvação.
Mas tinha certeza de uma coisa:
Victor vinha mentindo sobre muito mais do que apenas o caso com Marissa.
Havia mais alguém vigiando seus passos.
E, fosse qual fosse o jogo que Victor estava armando, ela não era a única peça no tabuleiro.
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