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Cidade Feliz

Cidade Feliz

Last Updated: 2026-03-28 00:31:11
Language:  Português0+
4.1
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8
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Synopsis

Ambientado na cidade finlandesa de Virma durante um sol da meia-noite incessante, um jornalista insone chamado Kalle descobre gradualmente que a perfei??o perturbadora da cidade é mantida por implantes cerebrais que suprimem emo??es, memórias e qualquer forma de dissidência.


Chapter1

O sol não se punha havia três semanas.

Kalle Virtanen estava parado diante da janela de seu quarto às duas da manhã. As cortinas estavam puxadas o máximo que podiam, mas uma luz pálida ainda vazava pelas frestas. Lá fora, a cidade finlandesa de Virma repousava sob o sol da meia-noite, clara como se fosse meio-dia, projetando sombras longas que pareciam estáticas, recusando-se a crescer. Ele havia se mudado para lá três meses atrás em busca de silêncio, fugindo do caos de Helsinque. Encontrara o silêncio. Silêncio até demais.

Ele não dormia havia quinze dias.

A princípio, culpou a claridade. A noite branca, como diziam os moradores locais — aquele breve período de verão em que o sol se recusa a descer, tornando o dia eterno. Na farmácia, venderam-lhe cortinas blackout, pílulas para dormir, remédios fitoterápicos. Nada funcionou. Seu corpo simplesmente rejeitava o sono, mantido em alerta por um instinto primitivo que gritava: algo está errado quando o sol nunca se põe.

No vigésimo dia, as alucinações começaram.

Ele preparava café às três da manhã — a terceira cafeteira daquela noite — quando percebeu um movimento pela janela da cozinha. A casa vizinha, um chalé de madeira amarela que estivera vazio desde sua chegada, estava com uma luz acesa. Não, não era uma luz. Apenas o reflexo do sol eterno. Mas na janela, pressionado contra o vidro, estava o rosto de uma criança.

Uma menina. Talvez uns oito anos. Cabelos loiros. Olhos arregalados.

A boca dela se movia. Ele não conseguia ouvir nada através do vidro, mas pôde ler o formato das palavras: "Ajude-me".

Kalle soltou a caneca. O café se esparramou pelo chão. Ele correu para fora, os pés descalços atingindo o caminho de cascalho, e deu a volta até a casa vizinha. Esmurrou a porta.

— Olá? Tem alguém aí? Eu vi uma criança!

Nenhuma resposta.

Ele tentou a maçaneta. Trancada. Colou o rosto no vidro onde vira a menina.

O cômodo estava vazio. Poeira no chão. Sem móveis. Sem criança.

Ficou ali parado, a respiração pesada, o cascalho machucando os pés e o sol aquecendo suas costas às três da manhã. Teria imaginado aquilo? Quinze dias sem dormir, talvez seu cérebro estivesse começando a fragmentar.

Voltou para dentro, limpou o café derramado, mas não preparou mais. Apenas sentou-se à mesa da cozinha, encarando a casa vizinha pela janela, esperando para ver se a menina reapareceria.

Ela não voltou.

Mas às seis da manhã, quando seu outro vizinho, Mikko, saiu para regar o jardim, Kalle foi até ele.

— Mikko, aquela casa amarela... Está vazia mesmo?

Mikko olhou para ele com o mesmo sorriso agradável que todos os habitantes locais pareciam carregar.

— Vazia há cinco anos. O casal Järvi faleceu. Não tinham família. Por quê?

— Achei ter visto alguém. Uma criança.

O sorriso de Mikko não vacilou.

— Não há crianças ali. Você deve estar cansado. A noite branca afeta quem vem de fora. Com o tempo melhora.

— Certo — disse Kalle. — Obrigado.

Ele retornou para casa, mas o sorriso de Mikko não saía de sua cabeça. Não havia mudado nem por um segundo. Não demonstrara preocupação nem curiosidade, apenas aquela mesma expressão neutra e agradável. Parecia pintada no rosto.

No vigésimo primeiro dia, Kalle desistiu de tentar dormir. Passou a apenas existir naquele dia perpétuo, observando a cidade, fazendo anotações. Era jornalista por formação; o instinto de investigação estava em seu sangue. E havia algo em Virma que precisava ser investigado.

A cidade era perfeita demais.

Todas as manhãs, às sete horas, todos saíam de casa. Todas as noites, às dez, as luzes se apagavam em ondas sincronizadas. Sem discussões. Sem música alta. Sem choro de criança. Os pequenos brincavam na praça central, mas de forma silenciosa e educada, compartilhando brinquedos sem qualquer disputa.

No café, todos sorriam. No mercado, todos eram corteses. No centro comunitário, os idosos praticavam tai chi em uníssono perfeito.

Era como observar bonecos animatrônicos. Belos, funcionais, mas completamente sem vida.

Kalle foi à delegacia no vigésimo terceiro dia.

A oficial de plantão era uma mulher chamada Leena, de uns quarenta anos, o cabelo loiro preso em um coque apertado e olhos de um azul pálido como gelo.

— Como posso ajudá-lo? — O mesmo sorriso.

— Quero relatar algo. Continuo vendo uma criança na casa vazia ao lado da minha. Uma menina. Mas, quando vou conferir, não há ninguém lá.

Leena digitou algo no computador, com a expressão inalterada.

— A casa dos Järvi está desocupada há cinco anos. Patrulhas regulares confirmam que não há invasores.

— Eu sei o que eu vi.

— A noite branca pode causar alucinações — disse Leena gentilmente. — Especialmente em recém-chegados. Seu ritmo circadiano está interrompido. Recomendo que procure a Dra. Sonja no centro de saúde comunitário. Ela pode ajudar.

— Eu não estou alucinando.

— Claro que não. — Ainda aquele sorriso. — Mas um check-up não faria mal. Virma cuida de seus moradores. Saúde gratuita, sabe como é.

Kalle saiu da delegacia sentindo que tinha acabado de conversar com uma parede muito educada.

Naquela noite, à uma da manhã, a menina apareceu novamente.

Desta vez, ela estava parada em seu jardim.

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